O Esquilo e a Rolinha

Crate era um esquilo alto e esguio que ganhava a vida tocando contrabaixo acústico em uma castanheira acabada, bastante freqüentada por alguns pica-paus velhos, além de Johnny, um texugo que em seus tempos áureos esbanjara popularidade. Hoje em dia tudo o que eles queriam era uma boa cerveja e um bom jazz, e uma boa dançarina para alimentar-lhes a memória.

Jack, o rato saxofonista e Mark, camundongo pianista que perdera uma das patas na ratoeira, acompanhavam Crate nos “Ratoes Blues”, músicos freqüentes naquela árvore carregada de fumaça que lhes era tão acolhedora.

Doris havia acabado de ser despejada do quinto emprego no mês. A rolinha tentara trabalhar de atendente do salão de uma doninha, mas derrubara o esmalte sobre os pêlos de uma cliente; depois conseguiu um teste de telefonista na central do joão-de-barro, mas não agüentou a pressão. Agora um casal de raposas quase a jantava por ela ter quebrado um jogo de louças caríssimo. Ela respirou fundo, embora as lágrimas nem mais lhe viessem aos olhos, já estava acostumada à sensação. Abriu as asas e alçou vôo, deixando no solo apenas algumas penas velhas.


** Este conto está participando de um duelo Penas e Espadas contra Volcano, outro integrante da tripulação deste blog. Para continuar lendo clique aqui.
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Contrastes

“Vamos te levar pra subir o morro”, brincou o mestre-sala no ônibus que me levava até a sede da escola de samba. Precisava tirar a foto para o Contexto, situação que me levou até o Parque Jaraguá, que, verdade seja dita, não é uma favela.

Ainda assim, construções precárias erguem-se aqui e ali de ambos os lados da rua: casas cujas paredes provavelmente nunca terão rebocos, outras de madeira velha, algumas feitas de restos de construções alheias. No meio disso tudo, a escola de samba Azulão do Morro exibe, além de suas fantasias luxuosas ostentando plumas, brilhos e lantejoulas; os sorrisos e a simpatia de Juarez e Cidinha, mestre-sala e porta-bandeira da escola.

Nunca fui muito dado a samba ou carnaval. Provavelmente por isso me pareceu interessante a idéia de que o carnaval nacional, antes de um luxuoso festival exibicionista para estrangeiros e ricos empoleirados em camarotes, é uma festa popular, onde quem mais se diverte está ali na pista do sambódromo, e não nos bancos das platéias.

Mas nem só de carnaval vive o brasileiro.

Enquanto eu esperava o ônibus para voltar, descia a rua um rapaz negro, pouco mais alto que eu, vestindo um rosto jovem, perto dos vinte anos, mas cuja pele corroída pela miséria e os olhos vermelhos e secos impediam de ocultar sua origem humilde. Me pediu um cigarro, eu não fumo. Abaixou a cabeça:

—Mora onde?
—Perto da Unesp. Como a maioria dos estudantes de lá. — Respondi.
—Onde fica isso?
—Do outro lado de Bauru.
—Ahn.

Seguiram-se alguns momentos em silêncio, no qual uma velha, também negra, cujas expressões nem são mais possíveis de ler, tamanha as rugas, marcas e olhos profundos, passou andando fumando um cigarro como se fosse o último no mundo.

—Cê estuda?
—Jornalismo.
—Eu vi cê tirando foto…
Ele respirou fundo, sem fitar-me.
—Eu sô um perdido…
—Como? — perguntei.
—Perdido… Só penso em droga, não consigo pensá otra coisa. Tem jeito não. Como é seu nome?
—Rodrigo.
—Prazer, sou F… Viu, cê não tem um real pra eu comprá pinga?

Impossível privar-lhe, ao menos uma vez, o seu alívio no álcool. Ele subiu a rua, meu ônibus chegou.

A gente aprende uma coisa ou outra sobre a vida às vezes.

*Crônica que daqui a uma semana estará na próxima edição do Contexto.

Perdido

Era um rapaz negro, pouco mais alto que eu, vestindo um rosto jovem, perto dos vinte anos, mas cuja pele corroída pela miséria e os olhos vermelhos e secos impediam de ocultar sua origem humilde:

–Mora onde?
–Perto da Unesp. Como a maioria dos estudantes de lá. — Respondi. Perto e longe dependem do referencial. Para aquele jovem do Pq Jaraguá,a Unesp é longe, tanto geograficamente quanto socialmente.
–Onde fica issu?
–Do outro lado de Bauru.
–Ahn.

Seguiram-se alguns momentos em silêncio, no qual uma velha, também negra, cujas expressões nem são mais possíveis de ler, tamanha as rugas, marcas e olhos profundos, passa andando fumando um cigarro como se fosse o último no mundo.

–Cê istuda?
–Jornalismo…
–Ahn. Cê veio tirá foto da cidinha, eu vi…
O rapaz respira fundo.
–Eu sô um perdido. Só penso em droga, não consigo pensá otra coisa. Tem jeito não. Como é seu nome?
–Rodrigo.
–Prazer, eu sô Fernando. Viu, cê não tem um real pra eu comprá uma pinga?

Impossível privar-lhe, ao menos uma vez, o seu alívio no álcool.
Dei-lhe um real. Ele subiu a rua. Meu ônibus chegou.
A gente aprende uma coisa ou outra sobre a vida às vezes.

O dia em que o Orkut errou o meu aniversário

Esse é um texto que acabei de escrever, mais para ver se eu estou ou não enferrujado. É bem simples, uma idéia que tive nas minhas últimas semanas no Brasil e simplesmente não escrevi… até agora.

O dia em que o Orkut errou o meu aniversário

De todos esses dias estranhos da minha vida nem um pouco comum, um deles me foi extremamente peculiar. O ano era 2008, eu na época tinha vinte e quatro anos, havia acabado de terminar a faculdade e curtia as últimas férias escolares da minha vida procurando emprego.

Tudo havia começado bem. Acordei, me arrastei até o despertador impiedoso berrando do outro lado do quarto, lavei o rosto, me deparando com um rapaz jovem longe de ser belo, de barba mal feita, olheiras do tamanho do mundo e uma dor de cabeça que mal passava pela porta. Segunda-feira nunca é um bom dia para ressaca.

As coisas começaram a ficar erradas quando em meus e-mails, no meio dos anúncios de crescimento peniano, três mensagens de feliz aniversário se destacavam, não pelos beijos, abraços e cobranças de festas, mas por serem destinadas a mim. Em um pleno 24 de março, quando na verdade nasci em dezembro! Tudo bem, as pessoas se enganam. Curioso é três pessoas se enganarem ao mesmo tempo. Não era uma boa hora para responder corrigindo-as. Talvez quando minha cabeça concordasse em diminuir um pouco de tamanho.

Nove horas da manhã de uma plena segunda-feira, eu ali jogado no sofá com uma tigela de cereal no colo em frente à TV que passava algum desenho clássico de minha infância, totalmente remasterizado com efeitos especiais incríveis. Não sei, eu gostava daquele frame a frame desenhado à mão. Havia decidido começar a procurar emprego desde cedo. Mas aquele raciocínio adolescente de adulto vagabundo me levou a crer que nenhum chefe acorda antes das nove, então não fazia sentido bater nas portas antes disso.

As coisas ficaram realmente estranhas quando o telefone tocou, no momento que eu apertava o nó na gravata. Era a minha mãe:

— Oi filho.

— Oi mãe, tudo bom?

— Parabéns, viu? Estou te ligando pra falar feliz aniversário, antes que você saísse pra rua.

— Mãe? Mas hoje não é… — “Ding Dong”. — Espera um pouco, tenho que atender a porta.

O Eduardo e a Amanda viviam entrando no meu apartamento, tinham até mesmo a chave da porta, mas tocavam a campainha por educação, principalmente de manhã no intento de não me pegarem dormindo ou coisa pior.

— Parabéééns, velho! — O Eduardo me abraçou antes mesmo de eu poder explicar a verdade. Depois veio a Amanda com as congratulações, e eu perdido começava a acreditar em todo mundo. — Você vem com a gente! — Disseram os dois tirando o telefone da minha mão e me empurrando em direção ao elevador, enquanto a Amanda trancava a porta da frente do meu apartamento, o refúgio para o qual eu tantas vezes pensaria em correr durante aquele dia.

Naquele curto caminho de quatro andares me veio a explicação para aquela confusão toda. Quando eu começava a achar que não os outros, mas eu mesmo confundira a data do meu aniversário, uma fagulha de explicação surgiu da Amanda, em tom confessional.

— A gente tava planejando fazer uma surpresa pra você desde a semana passada. Vimos no Orkut.

Orkut… Tudo bem, aquela coisa não é o site mais preciso do mundo, ele erra quase sempre a quantidade de amigos, de comunidades e de mensagens que eu tenho, não era muito difícil errar a data do meu aniversário… Então foi isso o que aconteceu! Havia ensinado a minha mãe a usá-lo no ano anterior, deixei a velha viciada. Só não pensei que ela chegaria ao ponto de desacreditar da própria memória para dar veracidade àquela coisa. Tudo bem, aquilo era apenas um grande mal entendido, que estava na hora de desfazer. A minha boca chegou a pronunciar a primeira sílaba, cortada pela voz tenor do Eduardo:

— Tenho certeza que você vai curtir, cara! Deu um trabalhão, precisamos da ajuda de toda a galera, mas valeu a pena! Você merece, cara! Não é todo dia que se faz vinte e cinco anos!

Não… Eu não podia fazer isso com eles, suas faces de ansiedade e alegria contagiavam, resolvi me abdicar da minha memória e assumir o meu papel naquela brincadeira toda. O que poderia dar errado? No final, aquele seria um dia divertido para ser lembrado.

O planejado foi um almoço com todos os meus amigos, não foi fácil encontrar um horário que todos eles pudessem estar presentes, cada um teve que conversar com seu chefe e dar um jeito, o que me fez sentir mais vagabundo do que o habitual. Mas não era hora para pensar nesses detalhes, e sim de sorrir e receber o abraço de todo mundo.

Não é difícil acreditar que qualquer dia é o seu aniversário quando todos os seus amigos, e até mesmo a sua mãe o parabenizam. Tanto que depois de meia hora eu já falava como se tivesse pulado mais de meio ano direto para um 13 de dezembro. O pessoal reservou quatro mesas em um restaurante bacana, pediu para o chef preparar uma lasanha, meu prato favorito, e ainda deu um jeito de me arrumarem um daqueles bolos de dois andares para a sobremesa.

Um dos meus amigos acabou levando uma colega de trabalho para lá, e em algum momento da festa disseram que ela era cantora de uma banda, dessas que começam na faculdade e terminam em um bar qualquer. Foi quando um outro alguém sugeriu que ela cantasse uma música no karaokê do restaurante, e eu, ali, feliz, mas com a cabeça brigando para decidir que tipo de dor doía, e com o estômago dançado la cucaracha, decidi que a última coisa que eu queria ouvir era uma cantora de bar em um karaokê qualquer. Mas era o meu aniversário, aquela festa toda para mim, deixa estar.

Que voz! No início da festa, do almoço, não sei ao certo o que era aquilo, era tanta gente que muitos conhecidos e arrastados me passavam desapercebidos. Mas aquela voz ali que cantava ao microfone sorrindo para mim, provavelmente apenas porque era o meu aniversário, não me passaria a esmo nunca!

O resumo da história é que ela só trabalhava no turno da manhã, tinha a tarde inteira livre, assim como eu, que trabalhava apenas em horário nenhum até o devido momento dessa história. Como todos já devem ter imaginado, convidei-a para sair, na verdade, acabamos sobrando ali no restaurante depois que todos voltaram às suas devidas atividades, e conviadei-a para algum programa de segunda-feira à tarde, como pegar os ingressos promocionais pela metade do preço nos cinemas.

Morena, profundo olhos castanhos, pele clara e um sorriso lindo me encantaram com facilidade. E eu, de barba por fazer, dor de cabeça e um gosto de bicho morto na boca devido ao álcool do dia anterior, mal sabia o que estava fazendo. Eu tinha decidido continuar procurando emprego naquele dia. Sempre havia a terça-feira, afinal, não é todo dia que se completa 25 anos.

Evito me afundar nos clichês cotidianos da vida moderna pulando a parte do cinema, na qual acabamos ficando e conversando um pouco. Não contei a ela que aquele era na verdade qualquer outro dia na minha vida, os assuntos correram rios distintos desse. Acabei me esquecendo.

Caminhávamos a uma quadra da sua casa, não muito distante, quando um carro estacionou ao lado da calçada, um Honda Civic dirigido por um homem de meia idade, cabelos grisalhos e olhar penetrante. Tão logo parou, Erica apoiou-se na janela do passageiro sorrindo:
— Oi pai!

Aquele homem, que mais tarde eu viria a conhecer como Marcelo, desceu do carro, abriu um sorriso e cumprimentou a filha com um beijo no rosto, depois estendeu a mão para mim, ainda sorrindo.

— Esse é o Marcos. Hoje é o aniversário dele. — Me apresentou Erica.

— Puxa vida, parabéns, meu rapaz! Quantos anos?

— Vinte e cinco… — Respondi, não sei se por estar encabulado por ter sido congratulado sem nem mesmo estar fazendo anos, ou se já nem lembrava que aquela data não era a certa.

— Querem saber? Entrem no carro, vamos tomar uma cerveja em comemoração a esse seu aniversário!

— E à sua promoção? — emendou Erica.

— Ahn, claro, a isso também! — sorriu de volta Marcelo

No final da história fomos para um bar ali no bairro, acabei descobrindo que o cara trabalhava com a mesma coisa na qual eu havia me formado e precisava de um novo assistente, agora que havia sido promovido. Não precisei nem pedir o emprego, ele me foi oferecido, como um passe de mágica.

Comecei o dia como aniversariante e terminei com uma namorada e um chefe, tudo isso graças a um erro de um site idiota. Fiquei devendo essa para o Orkut. No final da noite fui arrumar minha data de aniversário: 30 de Outubro.

Quem foi que nunca quis dois ou três aniversários em um ano?

Jamaica

Uma menina de não mais que vinte anos, blusa azul do mickey, calças em estilo militar, cabelos escuros e longos sob uma boina. A rua desapercebida, a calçada de concreto nu, as roseiras de um vizinho, o poodle latindo desesperadamente para a estranha absorta.

Lua sonha em ir pra Jamaica

Três Bob Marleys ao som de Bob Marley, camisetas com a bandeira da jamaica, verde azul vermelho laranja rosa verde. A folha de maconha feliz, reggae, pequenos bracinhos folhosos agitados.

Lua nunca fumou maconha. Ela sempre quis fumar maconha mas tem medo de ficar viciada.

O cachorro de rua pela calçada sem direção e com destino certo.

O seu nome é Samantha. Mas ela nunca gostou desse nome. Começou a se chamar de Lua quando abriram uma comunidade hippie na cidade e era moda… Ela nunca foi lá.

A carteira escolar, uma aluna entediada, o vazio. A lousa grande com algumas coisas inteligíveis, o relógio na grande parede branca. Tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac. Tac tic tac tic.

Lua vai às aulas todos os dias, à noite. Entrou em Administração… Não sabe o que quer cursar.

O campo de golfe, um buraco de golfe, uma bola de golfe, um taco de golfe, uma mão de menina, uma tacada, a rolada, o erro. Uma bola de golfe, um taco de golfe, uma mão de menina, uma tacada, a rolada, o acerto.

Ela costumava jogar golfe com o Pai. Mas ele trocou o golfe pelo Tetris.

A grama de um campo de golfe, a areia do campo de golfe, o campo de golfe, o cercado do campo de golfe.

Lua continua vindo aqui para relaxar. Ela nunca passou do buraco sete… Nunca teve paciência…

O balanço, o parquinho, areia, crianças, gira-gira, escorregador trepa-trepa. Um jovem com violão, uma baladinha, duas moças com sorrisos, dois rapazes alegres. Um aceno.

Uma menina acenando sem graça, a recusa, um passo, outro passo. Um parquinho distante. Um passou, outro passo.

Luzes coloridas. Maconha gigante. Bob Marleys ao som de Bob Marley.

Deveriam inventar uma droga que não vicia… Lua é feliz na Jamaica.