A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

tumblr_o1o2o57pMm1qa42ilo1_500A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

Comecei a ler o livro bastante incomodado com as passagens racistas e sexistas, mas toquei adiante, porque como conheci o autor, sabia que não seria do seu feitio colocar aquilo ali no livro. Dito e feito, pouco adiante percebemos que aquela era a visão de um dos personagens apenas, um dos vários contrapontos apontados de modo muito inteligente pelo autor.

Assim, também já cabe dizer que o romance é “epistolar moderno” (me falta um termo melhor para descrevê-lo). É uma colagem de textos escritos por seus personagens, o principal deles o jornalista Isaías Caminha descrevendo sua experiência ao viajar a Porto Alegre para acompanhar a investigação dos crimes do tal temível Dr. Louison.

O livro faz uma brincadeira com personagens clássicos da literatura brasileira, atirando-os em uma Porto Alegre de 1911 steampunk, com autômatos, maravilhas anacrônicas e claro, muito do preconceito e patriarcalismo arraigados na nação, elementos importantes que são desconstruídos na trama.

Dito isso, eu tinha muito para amar o livro, mas apenas gostei. Isso porque, como homenagem aos grandes autores brasileiros do século passado, Enéias imita o seu estilo de escrita, adaptando um pouco a linguagem e a tecnologia. Embora um exercício muito interessante, achei a leitura bastante cansativa. Como isso é questão de estilo e sei que muitos amam um texto mais rebuscado, acredito que o livro tem seu público.

Vale pela ótima trama e suas várias passagens bastante intensas.

PS: A capa, embora bonita, definitivamente não combina com o seu conteúdo.

Saiba mais sobre o universo do livro em brasilianasteampunk.com.br

Prata, Terra e Lua Cheia – Felipe Castilho

tumblr_o1mnekWMau1qa42ilo1_500Prata, Terra e Lua Cheia – Felipe Castilho

O segundo volume do Legado Folclórico é melhor que o primeiro. Bom, ele é mais intenso, sem dúvida, o que é uma grande vantagem. Mas também demora mais para chegar em uma parte realmente interessante, onde os protagonistas estejam em perigo, lá pelo 1/3 do livro, por isso o começo da leitura foi difícil, um tanto arrastado.

Ficou a sensação de que os personagens evoluíram, as situações estão mais sérias, mas também mais pessoais. E ao mesmo tempo mais divertidas, com humor pontuado no lugar certo.

PS: Preciso terminar logo de fazer os comentários sobre os livros que li ano passado, está cada vez mais difícil comentar algo que já li há mais de mês!

Breves impressões sobre alguns livros infantis

tumblr_o0uwiybNaE1qa42ilo1_500Breves impressões sobre alguns livros infantis

Quando comentei com um amigo sobre a dificuldade que estava tendo em escrever um livro infantil, ele resolveu me emprestar uma pequena seleção do que costuma ler para o seu filho. Aqui vão algumas impressões.

O Dragão de Gelo – George R. R. Martin
É um conto bacana. Apesar de infantil, tem guerra e tem morte (um bocado). Tem uma ótima fluidez narrativa, mas também não tem apresenta demais que chame a atenção. Escrever “Nasce um clássico” na contracapa foi pretensão DEMAIS da Leya. Vale pelas incríveis ilustração de Luis Royo.

O Livro dos Medos – Autores diversos
Este livro sofre do “mal de coletâneas”. Alguns muito bons e outros bastante medianos, que sofrem de didatismo. Destaque para “Nininho de Antônio de de Afonso”, de Zelia Cavalcanti e “Nas asas do Condor”, de Milton Hatoum, que chamaram mais a atenção.

Silêncio: Doze histórias universais sobre a morte – Ilan Brenman e Heidi Strecker

Eu acho que teria gostado muito do livro se não fosse o título, que me gerou uma expectativa errada. Abri esperando mitos que exploravam o conceito de morte, renascimento e fim, mas encontrei um livro sobre folclore de diversos povos, onde, enfim, pessoas morrem. Mas não é tratada como um ponto de partida para debate ou outras explorações mais interessantes.

Historinhas em versos perversos – Ronald Dahl com ilustrações de Quentin Blake

Um livro bastante divertido para exercitar o lado mais traquina das crianças (e adultos). Os contos clássicos são subvertidos de maneiras divertidas e inteligentes, com finais muito mais interessantes (e menos moralizantes) que os originais. O livro é todo em verso, o que deve dar um charme a mais em uma leitura em voz alta para crianças.

Eloísa e os bichos – Jairo Buitrago e Rafael Yockteng

Que livro incrível. Dessa lista, sem dúvida o meu favorito. Na contracapa: “Uma menina chega a uma nova cidade e se defronta com um mundo desconhecido e se surpreende, onde se sente um verdadeiro ‘Peixe fora d’água’, um bicho estranho!” Questões como rejeição, aceitação, o convívio em uma sociedade diferente, imigração. Tudo isso transparece nas 36 páginas quase sem texto. Comprem que vale.

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço

tumblr_nysqoxJjqS1qa42ilo1_500Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço

Tem 4 mulheres. E elas são piratas espaciais. E Germana Viana é uma pessoa meio insana. E Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço deve ser a HQ mais sensacionalmente doida que eu já li em português. Ok, podemos falar que a Germana tem um ótimo controle do posicionamento de quadros, cada página é bastante diferente sem que a história perca a unidade ou confunda, o traço é simples, sem frescuras, mas bem divertido, com poucos e bem posicionados detalhes. Mas gente. O roteiro é fantástico. Leiam, é engraçado. Do tipo que tem pombos que são criaturas maléficas. Mas os POMBOS SÃO BARATAS FAZENDO COSPLAY!

Você pode ler algumas das histórias ou comprar o livro em lizziebordello.com

Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

tumblr_nyqgkxLkyx1qa42ilo1_500Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

Conheci a Jana no lançamento de seu próprio livro. Já tínhamos trocado uma ou duas palavras online. Comprei Lobo de Rua para ajudar uma conterrânea, sem saber o que esperar. Tive uma grata surpresa.

Mesmo autopublicado, o livro tem um bom acabamento, simples e cuidadoso, com texto bem revisado. No entanto, talvez pela falta de alguém para fazer uma boa edição, o ritmo é inconstante. Começa muito bom, mas chega a um longo terceiro capítulo mais arrastado, onde muitas coisas são explicadas desnecessariamente. O ritmo melhora no final, que apresenta novos personagens e cenários que apenas dão as caras brevemente (possivelmente explorados futuramente em outras obras).

A escrita de Jana tem uma força natural, diálogos bem construídos que aumentam e diferenciam os poucos personagens dessa novela. Alguma cenas têm bastante impacto, sem cair no brega ou no clichê, o que por si só já é um feito notável e vale a leitura de Lobo de Rua, que como primeira publicação tem suas pequenas falhas, mas que apresenta uma autora que promete.

“Feitiço de Amor” – Clara Madrigano

tumblr_nyfp0b519m1qa42ilo1_400“Feitiço de Amor” – Clara Madrigano

Assim que terminei “Feitiço de Amor”, meu comentário foi exatamente esse “nossa, que conto incrível! Amor, lê isso AGORA!”. Esposa leu. E adorou também. Então temos aqui já duas pessoas recomendando este conto. Celeste é uma adolescente normal, e como toda adolescente normal, ela se apaixona por um personagem fictício. No caso, o Fantasma da Ópera. Mas, ao contrário de uma adolescente normal, sua melhor amiga (a narradora), mora a duas casas de Baba Yaga, que tem uma receitinha para dar um novo caminho para essa paixonite. Dizer mais seria estragar um dos contos mais divertidos que já li. Clara Madrigano escreve com leveza e fluidez, sem literalismos, sem tentar impressionar. Apenas conta uma boa história, e só quem escreve sabe como é difícil deixar a história falar por si só.

O conto foi disponibilizado pela autora de graça, então não tem desculpa para não lê-lo. Aqui:
http://tinyurl.com/feiticodeamor

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Le Guin

tumblr_nyby8cdx9t1qa42ilo1_500A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Le Guin

Uma das coisas sobre clássicos é que existe a tendência a assumir que todo mundo conhece o livro, ou ao menos sabe que existe. Eu não sabia de nada da Ursula Le Guin até há três anos, e antes de A Mão Esquerda de Escuridão, não havia lido nada da autora. (Shame on me!)

Dito isso, leiam esse livro. É ótimo, é incrível. Eu esperava algo muito mais cabeça (pois o livro é sempre citado quando a questão do gênero na FC vem à tona), mas encontrei um romance divertido ainda que questionador. Resumindo toscamente, conta a jornada de Genly Ai, o primeiro enviado ao planeta Gethen, para fazer contato com os moradores locais em nome de uma organização intergalática. Genly acaba envolvido em uma trama política entre as duas principais nações do planeta e precisa conseguir sobreviver a intrigas enquanto prossegue em sua missão. A graça do livro está no fato de que gethenianos são assexuados na maior parte do tempo, e no período fértil podem assumir qualquer um dos gêneros, até alternadamente. (Tanto que o estrangeiro é considerado um pervertido bizarro por estar sempre no período fértil.)

Por favor, ignore minha resenha ruim e vá ler o livro. Porque o que importa não é a trama (embora seja muito divertida), a política (embora seja muito bem construída) ou os alienígenas e sua cultura (bastante complexos). O que importa são as sutilezas, a verdadeira história não está na frente do leitor, mas nas entrelinhas de uma relação que leva o livro inteiro para ser construída.

Clube da Luta – Chuck Palahniuk

tumblr_nxcxjwAw8N1qa42ilo1_500Clube da Luta – Chuck Palahniuk

Demorei para escrever este comentário, estava esperando para ver em que se transformariam os pirilampos que insistiram em sobrevoar minha mente ao final da leitura. Não em muita coisa.

Minha lista de leitura é um tanto caótica, peguei Clube da Luta depois de um livro do China Miéville. São estilos quase opostos, Chuck Palahniuk é econômico ao extremo em sua prosa, e aumenta o impacto da narrativa mantendo apenas o essencial. Um ode moderno contra o consumismo, Clube da Luta é poderoso porque é sedutor. Dentro de cada um de nós há um monstro querendo gritar que não é as roupas que veste, as coisas que compra ou o carro que dirige. A filosofia de Tyler Durden é atraente porque é uma fuga, uma janela. Viver cansa.

Clube da luta é uma espiral doentia em busca do fundo do poço, em busca da máxima (já bastante explorada) de que você só será livre quando perder tudo. O que nos leva ao final, que… Não sei o que pensar sobre o final. O final do filme é um pouco mais corajoso que o do livro, mas nenhum dos dois me é satisfatório. Talvez porque não haja realmente uma saída. De qualquer modo, um ótimo livro para lembrar que você não é o seu emprego. Ou quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco.

A Cidade e a Cidade – China Miéville

tumblr_nvlm9v36Cl1qa42ilo1_500A Cidade e a Cidade – China Miéville

Expectativa demais é uma droga. É o primeiro livro de China Miéville que li, esperando encontrar um novo autor favorito, mas não fiquei com vontade de ler outros. Não ainda.

A Cidade e a Cidade parte de uma premissa absurda: em um mesmo espaço geográfico existem duas cidades coexistindo, mas quem está em Beszel não pode interagir de qualquer modo com aqueles em Ul Qoma (nem mesmo a enxergando), e vice-versa. O termo para esse crime chama-se “breach”, e é aplicado com extrema precisão por uma misteriosa facção com o mesmo nome. Nesse cenário maluco temos o inspetor Tyador Borlú investigando o assassinato de uma menina, aparentemente vinda da outra cidade, numa trama conspiratória espiral.

O livro exige demais da sua suspensão de descrença. A premissa é tão estranha que é preciso um esforço muito grande para acreditar naquele universo, o que praticamente impediu minha imersão. Os personagens são bem construídos, mas Borlú não tem características especialmente curiosas além do detetive obstinado. O que pegou mesmo foi a prosa de China Miéville. Muito descritiva, até arrastada em alguns momentos, ele vai criando aquele mundo em minúcias, não só visualmente, mas toda a trama política e social que move aquelas cidades (elementos necessários para você entender mais adiante por que raios a teoria da conspiração fazia sentido). Há uma cena no final em que um americano comenta como aquelas cidades são ridículas, senti-me vingado.

Foi um livro difícil de chegar até a metade. Li em inglês, o que também pode ter atrapalhado um pouco. Depois de dois terços do livro, o jogo vira e o resto é fantástico, incrível, e você percebe como Miéville é genial. Você acompanha e torce pelos personagens, busca uma resolução para aquilo tudo, até chegar no final surpreendente. Cara, que final.

Ou seja, difícil elaborar uma opinião. É um livro ruim e ótimo, e você precisa do primeiro para ter o segundo. Opinião dividida. Como as tais cidades.

Talvez eu goste de outra coisa dele. Recomendações?

Tomai e Bebei – Max Mallmann

tumblr_nv8t813siL1qa42ilo1_500Tomai e Bebei – Max Mallmann

Tomai e Bebei é um livreto com um conto de Max Mallmann lançado pela Aquário como experiência de publicação. O formato, que lembra um pouco o cordel, é bastante atrativo e pode ser uma solução bastante interessante para a impressão de contos. O enredo é simples, traz a história de um padre beberrão que desconfia do bispo que o visita: talvez não seja necessariamente humano. A história segue com alguns clichês do gênero, foge de outros e mantém o interesse até o final pela escrita fluente e divertida do autor. Também é ricamente ilustrado pelo Estevão, o que dá um charme próprio à obra.

As Cidades Indizíveis

tumblr_nuj15mmvtD1qa42ilo1_500Uou. Comprei esse livro na Odisseia Fantástica ao ver na capa o nome dos organizadores Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira, pensando que daí só podia sair coisa boa. Não me decepcionei. A coletânea é ótima, recheada de contos estranhos, cidades vivas que consomem e se tornam seus habitantes. O conto que abre a obra “Galimatar”, de Fábio Fernandes, é incrível. Tem um belo trabalho na construção de um diálogo feito por uma refeição, em uma cidade pop-afro-futurista, com uma referência ao final que torna a obra ainda mais deliciosa. Um dos melhores contos que já li. A coletânea também traz “O Longo Caminho de Volta”, de Ana Cristina Rodrigues, que apresenta a cidade-biblioteca de Biblos já decadente e fechada. “O Dia em que Vesúvia Descobriu o Amor” e “Primeiro de Abril: Corpus Christi”, de Octávio Aragão e Nelson de Oliveira, respectivamente, trazem cidades vivas, caóticas, desejosas. Se não me engano, a coletânea está praticamente fora de catálogo, mas ainda pode ser encontrada por aí. Recomendo muito, FC nacional de primeira.

Até o Fim da Queda – Ivan Mizanzuk

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Já estava interessado no livro. Depois de recomendações, comprei para ver qual é. A primeira coisa que chama a atenção no livro é seu belo projeto gráfico. O enredo é formado por fragmentos de entrevista, reportagens, cartas antigas e transcrições de áudio, e tudo isso transparece no cuidado com as escolhas de diagramação e tipografia. No entanto, é justamente este formato que não me prendeu. Temos um protagonista, Daniel Farias, investigando um suposto suicídio coletivo, e daí para frente a trama se aprofunda em uma teoria conspiratória, com suicídios em série depois da publicação de seu livro. A trama é muito bem construída e Ivan escreve com fluidez, mas não me prendeu, talvez por eu não me identificar com nenhum dos personagens, que têm pouco explorados os seus sentimentos e conflitos. O livro é bom, interessante, mas a mim soou distante.