Salamandra

Este pequeno conto havia sido escrito como um spin-off do meu livro, Primeiros Circuitos, apenas um exercício. Como o conto estava aqui na gaveta e este blog parado, resolvi publicá-lo. Espero que gostem!

Um dos robôs mais incríveis que já conheci? É uma pergunta difícil, mas eu me lembro de uma pequena criatura, há muitos anos, que apelidamos de Salamandra. Ele parecia mesmo um lagarto e conseguia escalar paredes. Isso foi há muitos anos, quando eu era jovem e havia acabado de concluir o curso de engenharia robótica na Universidade de São Paulo.

Salamandra foi criado com um propósito não muito nobre: chegar até a sala dos servidores e alterar um único dado de um banco de dados. Nós o soltamos em frente à calha do edifício central. A criaturinha grudava suas patas na parede de tijolos à vista, enxergando o mundo por uma minúscula câmera infravermelha e caminhava devagar, passo a passo.

Aquele robô havia sido construído por um grande amigo meu, Guido. Éramos colegas de quarto, muito próximos. Mas para entender sua missão, preciso contar sobre a ilha, um lugar de vegetação exuberante que abrigava uma única cidade, incrível com prédios de vidro e as pessoas mais inteligentes no planeta.

Quando Salamandra chegou ao telhado, deveria caminhar até o duto de ventilação, por onde entraria no prédio. Mas um pombo gigante se interessou, avançando com suas garras. O pequenino robô grudou na calha de chuva com seus ímas, se debateu até conseguir se livrar do animal e continuar em seu propósito.

Na época, Guido e eu íamos juntos aos torneios de futebol mecânico, arenas de destruição e cybercampeonatos. Época boa aquela, vocês nem imaginam! Foi quando ouvimos falar da ilha. Projeto Angra VI era o seu nome oficial, que ninguém ligava. Era apenas a ilha.

Tinha tudo que um rapaz de vinte anos podia sonhar. Uma cidade inteira projetada para engenheiros, com tecnologia de ponta, diversão, a vida bancada pelo governo. E uma gigante oportunidade de carreira: os melhores pesquisadores e maiores empresas do mundo estariam lá.

Salamandra caminhava pelos túneis devagar, pois apesar de ser madrugada, os guardas trabalhavam no prédio e não podia chamar a atenção. Virou uma curva. Pelas frestas de ventilação de uma das salas, percebeu luz e vozes. Havia gente no prédio! Diminuiu o ritmo para não levantar suspeitas, mas precisava chegar a tempo. Se acelerasse, faria barulho. Se continuasse devagar, chegaria só no horário comercial e seria detectado.

Os critérios de admissão à ilha eram ferrenhos. Guido e eu passávamos horas conversando sobre como construiríamos nossa carreira, vidas e sonhos. Para entrar, era preciso cumprir três etapas: uma prova escrita, uma entrevista, e um projeto prático.

A primeira foi difícil, mas conseguimos a aprovação. Na entrevista a situação mudou de figura, fomos rejeitados. Jovens famílias tinham prioridade, pois a ilha teria que ser auto sustentável a longo prazo. Nos disseram para tentar novamente em alguns anos, mas Guido estava obcecado.

Em cerca de três meses construiu um pequeno robô, com quatro pernas, uma cauda articulada e centenas de minúsculos chips em suas costas. Aquele seria seu passaporte para lá.

Salamandra caminhou devagar por cerca de quinze minutos, até que as luzes se apagaram e a sala ficou em silêncio. Era agora. Deciciu arriscar e acelerou um pouco, só mais alguns metros para o seu destino!

Identificou as pequenas luzes piscando na sala abaixo. Uma brisa gelada em seus sensores de calor não deixavam dúvidas sobre a natureza do local. Passou por uma fresta um pouco mais larga, mas ficou preso! Balançou de um lado para o outro, sem conseguir mover-se para frente ou para trás.

Salamandra falharia em sua missão. Não, fora criado para aquele propósito e iria até o fim. Usando toda a força de seus motores, balançou de um lado para o outro, conseguiu se livrar e despencou direto até o chão, com um barulho alto.

“Quem está aí?” – Gritou um segurança, que acendeu a luz ao entrar. O pequeno robô correu para baixo do rack de servidores e esperou, enquanto o homem conferia cada corredor, até desistir e sair da sala.

Conectou o plugue, acessou o banco de dados e alterou o único registro que precisava. A partir daquele momento, Guido era um dos felizardos aprovados para morar na ilha. Salamandra estava feliz, havia realizado a vontade de seu mestre. Só restava mais uma coisa a fazer, e entrou dentro do gabinete de um dos computadores, onde não seria encontrado. Salamandra ativou seu circuito de auto-destruição. Em breve uma forte corrente elétrica percorreria todo o seu corpo metálico, apagando qualquer rastro do que fora fazer ali.

Estava feliz. Tinha sido um bom robô.