Primeiros circuitos

Fuz acordou. Acordou não seria o termo mais adequado, já que ele não estava dormindo. Também nunca havia existido até aquele momento, mas não nasceu, nascer era para humanos. Foi ligado, e de uma hora para outra, estava no mundo, vivo, desperto, pronto como jamais esteve.

Estava sobre uma mesa grande, de madeira, e seus olhos, dois parafusos muito bem ajustados no meio de tampinhas de refrigerante, viram uma superfície brilhante a poucos passos de distância. Tentou mover suas rodas, mas sem sucesso, não conseguia sentí-las. Encontrou os comandos para mover o pescoço, e um novo mundo se abriu. Podia agora realizar pequenos movimentos de cabeça, viu as vigas no teto, uma janela emoldurada por uma leve cortina verde, por onde entravam os raios do fim da tarde, na parede uma variedade de ferramentas para as mais diversas funções se alinhavam em placas de madeira cuidadosamente marcadas.

Espere, um movimento!

Fuz parou, imóvel, porém nenhum movimento conseguiu detectar com seus sensores. Quando mexeu sutilmente a cabeça, pôde ver duas estruturas ao lado de seu corpo acompanharem os movimentos. Os braços, feitos a partir de dois velhos garfos com os espetos dobrados, que lhe serviam de dedos, uniam-se ao seu corpo de lata por uma grossa mola que fazia as vezes de ombros. Não foi difícil ajustar seu código e aprender a separar o movimentos dos braços, pescoço, ombros e dedos.

Não podia ver muito do alto de sua bancada, mas o pouco que via era mágico. O sol, brilhando por entre a dança da cortina com o vento, que aquecia seus sensores de calor, era tão mais incrível ao vivo que em seus registros. As texturas, que agora experimentava com a ponta de seus dedos-garfos, as cores, filtradas por seus olhos de tampa de garrafa, eram tão mais ricas e complexas do que as 256 que estava acostumado.

Não tinha orelhas, mas uma antena no lado direito da cabeça podia ouvir ao longe uma mulher cantando em uma língua estranha, acompanhada por instrumentos analógicos muitos superiores aos sintetizadores com os quais fora criado. “Será que um dia poderei cantar?” Analisou parte da frequência do belo som que ouvia, e por meio de um pequeno alto-falante colocado dentro de seu corpo, na frente do qual três pequenos cortes davam vazão ao som, improvisou alguns blips e chiados, matematicamente impecáveis, mas musicalmente péssimos.

Ele desanimou por um instante, sem demonstrar. Não fora criado com boca ou sobrancelhas, como poderia? A tristeza durou pouco, tão logo descobriu que, embora não tivesse rodas, como fazia crer seu sistema operacional, fora equipado com duas pernas feitas de grossos parafusos, já um tanto enferrujados, um deles até um pouco torto. Tão logo aprendeu a usá-las, seguiu direto para o objeto brilhante que havia visto, um espelho que refletia  o sol em seus olhos.

O pequeno se viu direito pela primeira vez. Bem em seu peito havia um mostrador analógico de amperagem, onde se liam as três letras estilizadas da melhor fabricante local de instrumentos elétricos, a F – U – Z.

Fuz olhou para o ponteiro do mostrador, sem entender para que servia. Pesquisou seu código todo sem encontrar referência àquela ferramenta, não conseguia mover ou ler seus resultados. Estava ali, em seu peito, praticamente estática, salvo por um leve movimento do ponteiro com o balançar de seus passos.

Uma ferramenta sem propósito. Seus circuitos logo se perguntavam o motivo desses ponteiros em seu peito. Eram belos, sem dúvida, mas tinham que servir para alguma coisa. Claro, isso estaria ligado ao seu próprio propósito, e quase sofreu um curto circuito. Não é todo dia que uma pequenina criação chega à pergunta fundamental nos primeiros minutos de sua existência.

Com tantas lacunas em sua programação, olhou mais uma vez para o espelho, para os seus olhos de tampinha de refrigerante, para os seus braços de garfos, e pernas de parafuso. Tudo aquilo se conectava de modo tão perfeito, que alguém deveria tê-lo montado. Alguém que teria todas as respostas, alguém que poderia mostrar um mundo ainda mais belo que a garagem, com sua mesa de trabalho e todas aquelas ferramentas!

Destinado a encontrar o Criador, Fuz se aventurou até o extremo oposto da mesa, próximo de onde acordou pela primeira vez.  Contudo, ao chegar à beirada da mesa ele viu…

Um corpo humano, extendido sobre o chão, com o peito para cima e uma face de dor em seu rosto. Ainda que em pânico, o pequeno ficou encantado com a perfeição daquela criatura, tão expressiva, gigante, e bela.

Tinha que ter algo que ainda podia fazer!

Segurando como pôde com seus dedos na beirada da mesa, conseguiu apoio para saltar sobre a cadeira, mas seus pés não foram feitos para a queda, se desequilibrando e rolando para o chão, em um grande baque de metal. Seus circuitos chiaram e se confundiram por um segundo, antes de retomarem as funções normais.

Caminhou devagar sobre o peito do homem, que era macio e delicado, não duro e de metal como ele. Seus sensores detectaram calor e movimento, então havia tempo! O Criador não estava morto, mas agonizava, podia sentir isso, um medo, um curto em seus circuitos que não sabia a origem.

Chegou ao centro do peito do homem, onde o coração estaria batendo, segundo os dados de anatomia humana instalados em seus circuitos.  E não havia batidas constantes, como deveria.

Fuz não tinha dispositivos de lágrimas para poder chorar. Tanta coisa para ver, ouvir, descobrir ou viver, que o pequeno jamais conheceria. Abriria mão de tudo aquilo, pois agora tinha algo mais importante.

Sem pensar duas vezes, enfiou as duas mãos no peito do homem, enquanto desligava todos os sistemas de proteção na bateria, dando o choque mais forte que conseguiu no humano. Sabia que seria o único.

Num último instante, antes do curto-circuito, pôde ouvir uma respiração profunda do Criador.
Num último instante, antes do curto-circuito, o ponteiro de seu mostrador de amperagem foi ao índice máximo.

4 thoughts on “Primeiros circuitos”

  1. Fazia algum tempo que eu não escrevia nada literário, resolvi tirar uma ideia recente da cabeça, juntando com minha nova obsessão (robôs de sucata). É praticamente um exercício de estilo para desenferrujar. Sejam legais nos comentários. :)

  2. Pohãn, se isso é estar enferrujado… Mandou muito bem, consegui ver cada detalhe pelos olhos de tampinha do robô. Mas me pareceu mais um capítulo de um romance do que um conto, você escreveu com essa intenção?

    Abs!

  3. Faço dos comentários da Noris o meu: essa é o capítulo 1 e o FUZ não pode morrer assim!

    Escreva mais que o senhor tá cheio de graças nos dedos! X)

    Abraços,

    .faso

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