Deve ser um bom sinal

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“Sombra de nós dois”

Foto tirada por mim em Holambra


Deve ser um bom sinal
História de amor em 3 atos
Para Lívia

Ato 1

Minhas mãos estão suadas. Espero que ela não perceba. Droga, minhas axilas estão suadas, não me lembro de ter corrido nenhuma maratona. Será que ela vem? Será que entendeu direito como eu entendi? É sempre complicado marcar um encontro, porque você não fala com todas as letras, deixa tudo nas entrelinhas, como nuvenzinhas rosas para serem pescadas no ar. Mas sempre existem desencontros… Ela perguntou “quem vai” uma vez, será que ela espera mais gente? Pior, será que vem com alguém?

Acho que a vi. Meu deus, como está linda. Caramba, eu não paro de suar. Respira fundo, uuuum, dooois, uuum, dooois. Sorria, isso, sorria de volta. Ela parece feliz. Será que eu pareço feliz? Assim que parar de tremer eu me preocupo com isso.

“Oi”.

Oi… Isso é coisa que se diga? Diga algo incrível, diga ‘nossa, como você está linda!’

“Oi… bonita…”

Pronto, seu idiota, você parece um robô desgovernado que perdeu metade do vocabulário em algum hospício intergalático. Ela está rindo, será que é de mim? Uma mancha de pasta de dente? Espero que não.. Ela continua sorrindo, acho que é para mim. Deve ser um bom sinal…

 

Ato 2

Sinceramente, eu preferia quando discutíamos o sexo dos anjos. Claro, não mudou muita coisa, ainda conversamos sobre os mesmos assuntos. Só que tudo parece tão sério agora… Todo esse papo de responsabilidade. Eu também tenho medo do futuro, mas cada coisa a seu tempo. Sei lá, parece que nem aproveitamos mais o hoje, toda aquela conversa sobre o amanhã amanhã amanhã, TCC, trabalho, escola. Acho que eu gostava mais de ouvir sobre o seu dia antigamente.

Discutir por coisas idiotas cansa. Talvez não as palavras em si, quem sabe tenhamos nos decepcionados demais. Não um ao outro, mas a nós mesmos. Parece que já não conseguimos mais ser quem éramos.

É meio estranho. Talvez incômodo. Ficar brigando contra o sono deitado na sua própria cama. Talvez o pior seja não saber direito por quê. Tem horas que acho que seria bom desencanar, fechar os olhos e dormir. Talvez não. Ok, eu sei que faço isso por ela. Meu esforço hercúleo não é contra o sono. É para lhe fazer companhia. Eu gosto de estar com ela, parece que faz com que todo o resto valha a pena. Deve ser um bom sinal…

Ato 3

A pior parte são os filmes românticos. Sinto saudades… Talvez não dela, mas das situações, de ter alguém para abraçar, para conversar. Os dias ruins são ruins para todo mundo. Só que os dias bons são piores. Nada como a agonia de uma linda noite estrelada, uma boa garrafa de vinho na geladeira, e ninguém para compartilhar. Eu sei, remoer as coisas nunca dá boa coisa, mas não consigo evitar.

Tá bom, admito, são saudades dela mesmo. A sensação terrível de olhar para a cama vazia. Eu gostava quando ela deitava na minha cama, eu a observava como um animalzinho fofo se aconchegando e tomando o seu espaço por direito. E adorava aquele olhar implorando por companhia.

Meu deus, quanto tempo faz? Cinco, seis meses. É, foram seis longos meses. “Vai ser só um curso, vai ficar tudo bem, eu volto”. Acho que foi aquela noite anterior. Se aquela noite não tivesse existido, tudo estaria bem. Merda, ainda lembro o que começou aquela discussão. Os meus óculos que ela quebrou sem querer. Os malditos óculos, que nem mandei arrumar. Terminar tudo dois dias antes da viagem foi a decisão mais estúpida. Talvez até pior do que tentar resolver tudo por e-mail.

Eu costumava reclamar que ela se preocupava demais com o futuro. Acho que dessa vez fui eu que não percebi como estava estressado com o desemprego.

Vôo 7890, é esse. Ela não espera me ver aqui, que porra eu estava na cabeça em pedir para os pais dela para vir buscá-la? Ali, atrás do tiozinho de amarelo. Está linda, alguma coisa diferente. Um ar juvenil. Ela me viu. E está com aquele mesmo sorriso do primeiro encontro. Deve ser um bom sinal…