Binti – Nnedi Okorafor

tumblr_o2yuidu1vr1qa42ilo1_500Binti – Nnedi Okorafor

Que novela incrível. Com 96 páginas, tem o tamanho ideal para a sua narrativa, que pode ser devorada de uma única vez. Binti é a primeira da tribo Himba a conseguir uma vaga na Oomza University, uma das melhores da galáxia. Para realizar o sonho de estudar ela foge de casa, mas durante a viagem algo terrível acontece. Trata-se de uma jornada de personagem, na qual Binti tenta equilibrar as tradições de seu povo com o conhecimento moderno, enquanto tenta sobreviver a um ataque das Medusas. Os cenários e elementos futuristas presentes na narrativa são incríveis e muito bem colocados (como por exemplo as naves que são criaturas orgânicas como camarões espaciais ou algo assim), e bastante equilibrado com o senso de “compromisso” da protagonista.

Enfim, adorei a jornada. Tem grandes reviravoltas? No começo sim, no final não muito, mas isso não importa, o que importa mesmo é descobrir como Binti vai conciliar mundos tão diferentes. E a narrativa é maravilhosa.

Leia o começo de Binti no site da Tor.com, em http://www.tor.com/2015/08/17/excerpts-binti-nnedi-okorafor/

Um Horizonte de Vermelho e de Corvos

tumblr_o2ebhzBiIv1qa42ilo1_500Um Horizonte de Vermelho e de Corvos
Bruno Magno Alves e Atlas Moniz

A novella escrita por esta dupla de escritores apresenta um mundo incrível, fragmentado, construído por pedaços de vários outros lugares. Fiquei com vontade de saber mais sobre esse espaço, ou não-espaço.

O trecho segue uma fórmula relativamente clássica: você tem o personagem jogado naquele mundo, o personagem experiente que faz as vezes de tutor e “o inimigo” que quer acabar com a anomalia causada por um daqueles dois.

O problema é que são páginas demais para história de menos. A história é ótima, a relação entre os protagonistas vai se construindo de modo muito interessante, mas a trama soa arrastada, as coisas só começam a acontecer de verdade lá pela metade do livro, quase abandonei antes disso.

Em resumo: um cenário ótimo uma boa história e a falta de alguém para cortar o excesso de páginas. Para quem gosta de um desenvolvimento lento, pode interessar.

Ele, que Caça Emoções (Capital Revelada) – Atlas Moniz

tumblr_o2ead46LMA1qa42ilo1_400Ele, que Caça Emoções (Capital Revelada) – Atlas Moniz

A primeira coisa que me chamou a atenção sobre o livro é como o seu enredo parece um Anime (Ou talvez um mangá, que não tenho o hábito de ler). Além das muitas referências à cultura japonesa, existe um certo “estilo” no enredo, dramas e personagens. Por um lado isso é um grande mérito, porque a trama é rica, prende, você realmente se interessa por cada um dos personagens. Por outro, ele traz o exagero típico desse meio narrativo, se não nas expressões, pelo menos nas situações carregadas nos tons e dramas. Seus personagens são “cinzas”, deprimidos, perdidos, que em certo momento também cansam. (O autor falou mais sobre o processo de escrita desse livro em seu blog: capitalrepublicana.wordpress.com)

Quanto à linguagem, o livro que demonstra uma linguagem bem trabalhada, mas com um tom particular do escritor, uma “voz” narrativa que em alguns pequenos momentos parece cansativa, principalmente no começo, onde a trama ainda não está tensa o suficiente para puxar a narrativa. Também tive certa dificuldade em acompanhar os personagens, em entender em determinados trechos a quem aquela ação se referia, demorei capítulos para entender quem era “o mais velho” e “o mais novo” descrito nas ações para evitar repetições.

Por fim, o livro é muito bom, eu adorei ele, li em praticamente dois dias. Mas também não é para todo mundo, consigo pensar em poucas pessoas a quem recomendaria a leitura. Se você se interessa pela temática habitual em Animes, personagens deprimidos e dramas familiares (com monstros e fantasmas, claro), vai fundo!

Breve comentário sobre Agreste Fantástico – Conjurações e Terra Seca

tumblr_o1zm9cjY161qa42ilo1_500Breve comentário sobre “Agreste Fantástico – Conjurações e Terra Seca”

Ganhei este livreto no Manifesto Irradiativo, da autora Paola Siviero (que por sinal está na Trasgo 09), e resolvi folhear para ver qual é. Primeiro, ele é bem diagramado e gostoso de ler, o que já passa na frente de muitas publicações do tipo.
O enredo é divertido, se passa no sertão brasileiro e foca na relação de dois personagens, a maga Josefa e Toninho, caçador. E tem trolls do agreste, uma mula chamada Véia e uma linguagem bastante solta e dinâmica.
É um conto curto, de dezesseis páginas, mas cumpre o seu papel e me deixou bastante curioso em relação ao projeto mais longo da autora nesse cenário.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

tumblr_o1o2o57pMm1qa42ilo1_500A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

Comecei a ler o livro bastante incomodado com as passagens racistas e sexistas, mas toquei adiante, porque como conheci o autor, sabia que não seria do seu feitio colocar aquilo ali no livro. Dito e feito, pouco adiante percebemos que aquela era a visão de um dos personagens apenas, um dos vários contrapontos apontados de modo muito inteligente pelo autor.

Assim, também já cabe dizer que o romance é “epistolar moderno” (me falta um termo melhor para descrevê-lo). É uma colagem de textos escritos por seus personagens, o principal deles o jornalista Isaías Caminha descrevendo sua experiência ao viajar a Porto Alegre para acompanhar a investigação dos crimes do tal temível Dr. Louison.

O livro faz uma brincadeira com personagens clássicos da literatura brasileira, atirando-os em uma Porto Alegre de 1911 steampunk, com autômatos, maravilhas anacrônicas e claro, muito do preconceito e patriarcalismo arraigados na nação, elementos importantes que são desconstruídos na trama.

Dito isso, eu tinha muito para amar o livro, mas apenas gostei. Isso porque, como homenagem aos grandes autores brasileiros do século passado, Enéias imita o seu estilo de escrita, adaptando um pouco a linguagem e a tecnologia. Embora um exercício muito interessante, achei a leitura bastante cansativa. Como isso é questão de estilo e sei que muitos amam um texto mais rebuscado, acredito que o livro tem seu público.

Vale pela ótima trama e suas várias passagens bastante intensas.

PS: A capa, embora bonita, definitivamente não combina com o seu conteúdo.

Saiba mais sobre o universo do livro em brasilianasteampunk.com.br

Prata, Terra e Lua Cheia – Felipe Castilho

tumblr_o1mnekWMau1qa42ilo1_500Prata, Terra e Lua Cheia – Felipe Castilho

O segundo volume do Legado Folclórico é melhor que o primeiro. Bom, ele é mais intenso, sem dúvida, o que é uma grande vantagem. Mas também demora mais para chegar em uma parte realmente interessante, onde os protagonistas estejam em perigo, lá pelo 1/3 do livro, por isso o começo da leitura foi difícil, um tanto arrastado.

Ficou a sensação de que os personagens evoluíram, as situações estão mais sérias, mas também mais pessoais. E ao mesmo tempo mais divertidas, com humor pontuado no lugar certo.

PS: Preciso terminar logo de fazer os comentários sobre os livros que li ano passado, está cada vez mais difícil comentar algo que já li há mais de mês!

Breves impressões sobre alguns livros infantis

tumblr_o0uwiybNaE1qa42ilo1_500Breves impressões sobre alguns livros infantis

Quando comentei com um amigo sobre a dificuldade que estava tendo em escrever um livro infantil, ele resolveu me emprestar uma pequena seleção do que costuma ler para o seu filho. Aqui vão algumas impressões.

O Dragão de Gelo – George R. R. Martin
É um conto bacana. Apesar de infantil, tem guerra e tem morte (um bocado). Tem uma ótima fluidez narrativa, mas também não tem apresenta demais que chame a atenção. Escrever “Nasce um clássico” na contracapa foi pretensão DEMAIS da Leya. Vale pelas incríveis ilustração de Luis Royo.

O Livro dos Medos – Autores diversos
Este livro sofre do “mal de coletâneas”. Alguns muito bons e outros bastante medianos, que sofrem de didatismo. Destaque para “Nininho de Antônio de de Afonso”, de Zelia Cavalcanti e “Nas asas do Condor”, de Milton Hatoum, que chamaram mais a atenção.

Silêncio: Doze histórias universais sobre a morte – Ilan Brenman e Heidi Strecker

Eu acho que teria gostado muito do livro se não fosse o título, que me gerou uma expectativa errada. Abri esperando mitos que exploravam o conceito de morte, renascimento e fim, mas encontrei um livro sobre folclore de diversos povos, onde, enfim, pessoas morrem. Mas não é tratada como um ponto de partida para debate ou outras explorações mais interessantes.

Historinhas em versos perversos – Ronald Dahl com ilustrações de Quentin Blake

Um livro bastante divertido para exercitar o lado mais traquina das crianças (e adultos). Os contos clássicos são subvertidos de maneiras divertidas e inteligentes, com finais muito mais interessantes (e menos moralizantes) que os originais. O livro é todo em verso, o que deve dar um charme a mais em uma leitura em voz alta para crianças.

Eloísa e os bichos – Jairo Buitrago e Rafael Yockteng

Que livro incrível. Dessa lista, sem dúvida o meu favorito. Na contracapa: “Uma menina chega a uma nova cidade e se defronta com um mundo desconhecido e se surpreende, onde se sente um verdadeiro ‘Peixe fora d’água’, um bicho estranho!” Questões como rejeição, aceitação, o convívio em uma sociedade diferente, imigração. Tudo isso transparece nas 36 páginas quase sem texto. Comprem que vale.

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço

tumblr_nysqoxJjqS1qa42ilo1_500Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço

Tem 4 mulheres. E elas são piratas espaciais. E Germana Viana é uma pessoa meio insana. E Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço deve ser a HQ mais sensacionalmente doida que eu já li em português. Ok, podemos falar que a Germana tem um ótimo controle do posicionamento de quadros, cada página é bastante diferente sem que a história perca a unidade ou confunda, o traço é simples, sem frescuras, mas bem divertido, com poucos e bem posicionados detalhes. Mas gente. O roteiro é fantástico. Leiam, é engraçado. Do tipo que tem pombos que são criaturas maléficas. Mas os POMBOS SÃO BARATAS FAZENDO COSPLAY!

Você pode ler algumas das histórias ou comprar o livro em lizziebordello.com

Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

tumblr_nyqgkxLkyx1qa42ilo1_500Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

Conheci a Jana no lançamento de seu próprio livro. Já tínhamos trocado uma ou duas palavras online. Comprei Lobo de Rua para ajudar uma conterrânea, sem saber o que esperar. Tive uma grata surpresa.

Mesmo autopublicado, o livro tem um bom acabamento, simples e cuidadoso, com texto bem revisado. No entanto, talvez pela falta de alguém para fazer uma boa edição, o ritmo é inconstante. Começa muito bom, mas chega a um longo terceiro capítulo mais arrastado, onde muitas coisas são explicadas desnecessariamente. O ritmo melhora no final, que apresenta novos personagens e cenários que apenas dão as caras brevemente (possivelmente explorados futuramente em outras obras).

A escrita de Jana tem uma força natural, diálogos bem construídos que aumentam e diferenciam os poucos personagens dessa novela. Alguma cenas têm bastante impacto, sem cair no brega ou no clichê, o que por si só já é um feito notável e vale a leitura de Lobo de Rua, que como primeira publicação tem suas pequenas falhas, mas que apresenta uma autora que promete.

“Feitiço de Amor” – Clara Madrigano

tumblr_nyfp0b519m1qa42ilo1_400“Feitiço de Amor” – Clara Madrigano

Assim que terminei “Feitiço de Amor”, meu comentário foi exatamente esse “nossa, que conto incrível! Amor, lê isso AGORA!”. Esposa leu. E adorou também. Então temos aqui já duas pessoas recomendando este conto. Celeste é uma adolescente normal, e como toda adolescente normal, ela se apaixona por um personagem fictício. No caso, o Fantasma da Ópera. Mas, ao contrário de uma adolescente normal, sua melhor amiga (a narradora), mora a duas casas de Baba Yaga, que tem uma receitinha para dar um novo caminho para essa paixonite. Dizer mais seria estragar um dos contos mais divertidos que já li. Clara Madrigano escreve com leveza e fluidez, sem literalismos, sem tentar impressionar. Apenas conta uma boa história, e só quem escreve sabe como é difícil deixar a história falar por si só.

O conto foi disponibilizado pela autora de graça, então não tem desculpa para não lê-lo. Aqui:
http://tinyurl.com/feiticodeamor

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Le Guin

tumblr_nyby8cdx9t1qa42ilo1_500A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Le Guin

Uma das coisas sobre clássicos é que existe a tendência a assumir que todo mundo conhece o livro, ou ao menos sabe que existe. Eu não sabia de nada da Ursula Le Guin até há três anos, e antes de A Mão Esquerda de Escuridão, não havia lido nada da autora. (Shame on me!)

Dito isso, leiam esse livro. É ótimo, é incrível. Eu esperava algo muito mais cabeça (pois o livro é sempre citado quando a questão do gênero na FC vem à tona), mas encontrei um romance divertido ainda que questionador. Resumindo toscamente, conta a jornada de Genly Ai, o primeiro enviado ao planeta Gethen, para fazer contato com os moradores locais em nome de uma organização intergalática. Genly acaba envolvido em uma trama política entre as duas principais nações do planeta e precisa conseguir sobreviver a intrigas enquanto prossegue em sua missão. A graça do livro está no fato de que gethenianos são assexuados na maior parte do tempo, e no período fértil podem assumir qualquer um dos gêneros, até alternadamente. (Tanto que o estrangeiro é considerado um pervertido bizarro por estar sempre no período fértil.)

Por favor, ignore minha resenha ruim e vá ler o livro. Porque o que importa não é a trama (embora seja muito divertida), a política (embora seja muito bem construída) ou os alienígenas e sua cultura (bastante complexos). O que importa são as sutilezas, a verdadeira história não está na frente do leitor, mas nas entrelinhas de uma relação que leva o livro inteiro para ser construída.

Encontro Irradiativo – Impressões de um homem branco cis hétero

Ir ao Encontro Irradiativo, um evento de dois dias com palestrantes negras, trans, gays, não-binárias e gente diversa, foi lindo. Mas também foi bastante incômodo. Não é todo dia que você é obrigado a ouvir, baixar a cabeça e sentir um pouquinho do mal que fazem o seus pares àquelas pessoas. E não importa se você não se identifica com as opiniões retrógradas dos seus pares, você tem acesso a todos os benefícios que essas identidades constroem.

Este não é um texto sobre o problema da falta de diversidade, de como representação importa, ou explicando por que há tantos nerds machistas e preconceituosos. O Manifesto Irradiativo já é lindo e cumpre o seu papel, e como outros já tratam do problema muito melhor que eu, deixei os links no final deste texto.

Também não posso falar sobre sofrer preconceito e exclusão, pois por mais problemas que eu tenha tido em minha vida, isso seria falso paralelismo. O protagonismo da luta deve ser de quem carregue a bandeira. Vou falar das únicas coisas para as quais me sinto gabaritado: privilégio e empatia.

 

Privilégio é transparente

Vou repetir, isso é importante: privilégio é transparente. Você não enxerga os benefícios que ele traz. Você não enxerga o olhar torto na fila do banco, a madame apertando a bolsa, porque tais olhares não fazem parte do seu mundo. Você não sente a porrada que sofre por ser quem é, por não concordar em abaixar a cabeça, porque ela não chega em você. É difícil validar a luta do Manifesto Irradiativo quando todos esses problemas não te atingem. Estão longe, lá na esfera do outro. A você, tudo isso é transparente.

Um das coisas mais poderosas que alguém, privilegiado como eu, pode fazer é investigar o próprio privilégio. Não é fácil, pois envolve desconstruir os blocos onde se apoia a sua própria identidade. Portanto, perdoem essa espiral ego-trip dos próximos parágrafos.

Tenho uma condição de vida confortável, e embora não tenha dinheiro para comprar tudo o que quero, nunca me faltou comida na mesa ou um teto. Saí de casa aos quinze anos para fazer colégio técnico em escola pública, ralei de estudar para passar no vestibular da Unesp, trabalhei de agência em agência, cheguei esgotado em casa muitas vezes, e continuo batalhando em busca de uma condição de vida um pouco melhor.

Essa é uma das minhas identidades construídas. Tudo isso é verdade. Mas ao mesmo tempo eu não posso esquecer que tive o privilégio de estudar em uma boa escola particular, tenho uma família bem estruturada que sempre incentivou os estudos, uma mãe leitora que me colocou no caminho das letras desde cedo e uma rede de segurança que me permite saltos mais ousados. Eu sempre tive (e ainda tenho) para onde voltar caso as coisas não dessem certo. Isso é privilégio.

Vamos investigar mais adiante. Meus pais trabalharam muito para que eu tivesse tudo isso, viveram o período da hiperinflação, chegaram a ter uma dívida no banco que equivalia quase à totalidade de seus bens. Se hoje eles pertencem a uma classe média-alta, é porque conquistaram esse direito com muito trabalho. Mas não podemos esquecer que ambos fizeram faculdade, tiveram acesso a uma boa educação pública, e sempre tiveram um pedaço de terra sobre o qual construir.

Ah, mas por sua vez, os seus pais… Bom, meu avô paterno chegou ao Brasil quase sem dinheiro, afetado por uma Europa devastada pela guerra, mas teve acesso a um pedaço de terra no Brasil oferecido pelo governo holandês.

Onde quero chegar: já é mais do que hora de desconstruir o mito do self-made-man, ninguém se ergue sozinho. Se não há a família, há sempre uma professora, um amigo. Há mérito em trabalhar duro, assim como há humildade em reconhecer todos que ajudaram você a estar onde está.

Peguei aqui apenas os aspectos socioeconômicos. Mas podemos ampliar esse espectro para qualquer esfera. Uma mulher só tem direitos básicos graças àquelas que lutaram tanto por isso no início do século.

Investigar o próprio privilégio é chato. É descobrir que você é o menino mimado que sempre teve tudo. Mas ao mesmo tempo, é isso que abre os horizontes. Ao analisar o que você tem, ao tornar o processo menos transparente, você se torna capaz de enxergar aqueles que não têm.

É muito importante dizer que isso não invalida a luta dos seus antepassados para que você esteja em sua posição. Muito pelo contrário, é um exercício de humildade e agradecimento, de perceber o quanto tantos outros fizeram para que você pudesse ser quem é. E se existe um meio de valorizar aqueles que vieram antes é carregando essa tocha adiante. Isso nos leva ao segundo ponto:

Empatia

Eu nunca vou saber o que é estar na pele do namorado da minha prima quando meu avô o impediu de entrar na piscina por ser negro. Eu não sei o que é entrar no ônibus e ter um ataque de pânico porque está cheio de homens. Eu não sei o que é apanhar no meio da Avenida Paulista por andar de mãos dadas com o meu namorado. Eu não sei. Mas eu posso imaginar. E só de imaginar dói.

Empatia é mais que necessário neste tempo de opiniões extremas. Por isso a primeira parte é tão importante, quanto mais você se desconstruir, mais será capaz de se colocar no lugar do outro, e poderá enxergar como essa luta é importante e básica. É uma luta para que possamos nos tornar mais humanos. Todos nós.

No Encontro Irradiativo vi gente com raiva, mágoa, rancor. Pessoas que não queriam ser assim, mas a quem enfrentar o mundo dia após dia torna a sua vida muito mais difícil. Mas ao mesmo tempo, pessoas brilhantes, que transformam tudo isso em amor, em luta, em obras de arte incríveis.

Apesar da divergência de opiniões quanto à forma, havia unanimidade em relação à importância da luta. Nos intervalos entre as palestras o clima era ótimo, sorrisos para todos os lados. Todos ali, sem exceção, tinham amor pelo que faziam. E naquele ambiente seguro podiam baixar a guarda e entregar-se plenamente a ser quem eram, pessoas únicas, representadas.

O que nós, privilegiados, podemos fazer a respeito

A primeira coisa é enxergar-se nessa condição. Eu preencho a cartela toda: homem, branco, cisgênero (tenho identificação com meu sexo biológico), hétero (sinto atração pelo gênero oposto). Mas quase todo mundo é privilegiado de alguma forma. Negro, mas de boa condição econômica. Mulher, mas branca. Nenhuma luta é mais importante que outra. Não é difícil enxergar onde você sofre preconceito, enxergar o privilégio talvez exija algum esforço.

A quem tem privilégio as portas estão sempre um pouco mais abertas. Então use o seu palco e redirecione os holofotes. Não se trata de pegar a bandeira e roubar o protagonismo, mas apoiar de todas as outras formas. Dar voz, compartilhar os pontos de vista, coletar o seu lixo e chamar a atenção do coleguinha que está fazendo piadas retrógradas.

E onde entra a cultura pop, o cinema, quadrinhos e a literatura em tudo isso?

Uma das “receitas de bolo” veio na última mesa: representatividade e inclusão.

Representatividade trata-se de aumentar a diversidade de personagens, fugir dos estereótipos e colocar gente gay, trans, negros, índios, gordos e de todo o tipo nas suas obras. Mas como?, perguntavam as pessoas brancas-hetero da plateia, eu incluso. Primeiro, trate-os com respeito, como seres humanos, abandone estereótipos e evite extremos. Seu personagem negro não precisa ser o bandido, mas também não precisa ser a Madre Teresa. É uma pessoa, com qualidades e defeitos. Seu personagem trans até pode sofrer um pouco de preconceito, mas não transforme isso no eixo do personagem a menos que você conheça a questão de perto e saiba muito bem o que está fazendo.

Um primeiro passo, para quem nunca trabalhou diversidade, é apenas colocar lá. Funciona assim: crie um personagem qualquer. Em algum momento da narrativa diga (ou melhor, mostre) que ele é gay, negro, trans, whatever. Continue a narrativa como se não tivesse nada de mais, não levante bandeiras por isso. Se essa não é a forma 100% perfeita, é melhor do que estereótipos e melhor que uma obra panfletária superficial. Representatividade é importante para que as pessoas que se identificam com aquele grupo possam se enxergar na cultura da qual fazem parte. Num dos exemplos mais clássicos, Whoopi Goldberg declarou que descobriu que uma mulher negra podia ser atriz ou fazer qualquer coisa na vida quando viu Uhura em Star Trek. E isso é mágico.

Mas representatividade deve ser apenas o primeiro passo. O segundo é inclusão. É termos mais produtores de conteúdo que contem suas próprias histórias. Abrir espaço para escritoras, editoras, cineastas, pessoas diversas dirigindo os holofotes.

Trasgo – Chamada por diversidade

Eu tenho um espaço. Chama-se Trasgo, e é a revista de contos de ficção científica e fantasia mais legal do mundo. É trimestral, com seis contos por edição. E embora publicamos mulheres em todas as edições e alguns contos de autores negros e diversos, é pouco.

O que queremos: mais diversidade. Mostrar todo o potencial da fantasia e da ficção científica em apresentar o diferente, em mostrar um novo mundo, em extrapolar preconceitos. Queremos contos escritos por pessoas trans, queremos contos escritos por autoras negras, queremos contos escritos por pessoas não-binárias.

Precisa ser um conto exclusivamente sobre o assunto? Não. Queremos todo tipo de conto. O que importa são os vários pontos de vista. Se você é uma pessoa trans e quer escrever sobre um dinossauro mothafucka quebrando tudo numa nave espacial, pode. Se você é uma mulher branca e quer escrever sobre alienígenas sofrendo racismo na sociedade humana, pode. Pode tudo!

A ficção científica e a fantasia sempre trataram de metáforas e extrapolações. Apresentam visões de mundo diferentes, exercitam a empatia. É assim que tem que ser, e é assim que a Trasgo vai caminhar cada vez mais.

Também é importante explicar que a Trasgo é um espaço seguro, porém aberto. O que significa? Que nada impede que uma autora seja atacada em outros lugares a partir de algo escrito na revista, mas isso não vai acontecer no próprio site, pois os comentários são moderados. Você também não precisa me dar um nome real ou social para publicar o conto, pseudônimos são aceitos. (A Trasgo paga as autoras, mas não se preocupe, arrumaremos um meio de fazer este pagamento). E a Trasgo tem uma comunidade de gente linda que lê e apoia a revista.

Por isso enviem os seus contos. Todos serão lidos com muito carinho. Respondemos a todas as submissões em até três meses. Para mandar material para a Trasgo, entre no site da revista.

Enfim

Espero que este texto não seja lido do modo errado. Ao analisar meu próprio privilégio, o objetivo é servir de exemplo, em busca de mais empatia por aqueles que não têm a mesma sorte que eu. É um exercício incômodo, mas muito, muito menos incômodo do que viver dentro de uma sociedade que não te aceita, não te representa e faz questão de mostrar isso em cada pequeno detalhe, até na “cor de pele” de um curativo.

Aproveitando o final do texto, algumas recomendações de leitura, só para começar a entender o tamanho do buraco.

Manifesto Irradiativo

Como foi o Encontro Irradiativo – Sem Serifa

O Efeito Scully – Momentum Saga

Valentina e os Porcos – Jim Anotsu

Das lutas de cada uma – Ana Cristina Rodrigues

[Atualização: na versão anterior deste artigo estava escrito Manifesto Irradiativo, onde deveria estar Encontro Irradiativo. O Manifesto surgiu no começo do ano, o encontro aconteceu no último fim de semana na Biblioteca Viriato Corrêa, em Sampa.]