Trabalho Honesto no Pacotão Literário

Minha novela Trabalho Honesto faz parte do Pacotão Literário! Isso significa que pelos próximos dias você pode comprá-la num pacote junto com outros 6 livros incríveis, todos ambientados no Brasil!

Como funciona o Pacotão Literário:

Nós do Pacotão Literário somos autores e autoras independentes com um desejo enorme de alcançar novos leitores. Se você ama ler, o Pacotão é uma excelente maneira de descobrir livros independentes de qualidade a preços bem acessíveis. Periodicamente disponibilizamos alguns livros (de sete a dez, em média) e juntamos todos eles num só Pacotão. Você, o leitor, contribui para nossa causa com o valor que achar justo (a partir de R$1,00) e recebe os e-books no seu e-mail. Quanto mais contribui, mais recompensas você recebe, como, por exemplo, livros físicos autografados pelos autores.

Sobre Trabalho Honesto:

Trabalho Honesto

Sobre as outras obras que fazem parte do pacote:

O Pacotão Literário #4 – Aventuras do Brasil nos traz obras dos mais variados gêneros: fantasia, horror, cyberpunk, ficção histórica, crônica, entre outros. Todas elas são ambientadas no Brasil e contadas por escritores de diversas partes do país, trazendo um pouco de cultura regional para suas histórias.

A Sombra do Cão“, de Alec Silva, se passa no interior da Bahia, onde um mal antigo persegue um rico fazendeiro, que assiste tudo o que possuía ser consumido por um espírito vingativo e demoníaco.

Em “O Fim do Medo“, de Ricardo Santos, os protagonistas testam os limites da sanidade em histórias ambientadas numa Salvador que não está nos cartões postais.

Kapoor“, de Lauro Kociuba, revisita o mito da caipora, criando um clássico moderno do folclore nacional.

Porfírio e os Cangaceiros“, de Tarcísio José da Silva, conta a história de um grupo de cangaceiros que espalha o terror e a violência entre a população do sertão baiano.

Onisciente Contemporâneo“, de Irka Barrios e outros autores premiados, reúne contos que refletem modos diversos de cada autor ver a vida. Olhares singulares e alguns poéticos aproximam o foco sobre situações cotidianas e outras nem tanto.

Em “Os Cavaleiros da Santa Cruz: A Trilha das Pedras“, de Bruno Rodrigues, os protagonistas terão que arriscar a vida por Tiradentes e sofrer na mão dos Inconfidentes, que o condenaram a participar de um dos momentos mais sombrios da História do Brasil.

Claro que tudo isso é por tempo limitado. Acesse http://pacotaoliterario.com.br/ e compre o seu pacote de livros! \o/

Pequeno Ladrão de Mamão

Pequeno Ladrão de Mamão

E num dia desses, céu azul e nuvem branca, o pequeno larápio parou na janela, atento. Dois metros a frente, um mamão. O meu mamão, cuidadosamente posicionado na cesta de frutas, ao lado das maçãs e sobre as laranjas.

Será que limpou suas penas azuladas antes de saltar para dentro de casa? Será que teve medo? E se a cachorra o visse? Teria velocidade suficiente para fugir? Será que fez uma breve planilha de prós e contras, uma estratégia de planos a, b e c?

A recompensa brilhava dourada ao sol da manhã. A brisa fresca cantava encorajadora. Todo passarinho já foi jogado do ninho uma vez, para aprender a voar antes do chão chegar. E com a audácia de quem a vida preparou para ganhar as nuvens, o pequeno ladrão de mamão pulou para dentro.

Deu uma, duas, três bicadas no mamão. Fartou-se. Voou-se. Viveu-se.

E surgiu o humano

Este miniconto foi publicado no Zine404, Edição 3.
Leia online aqui.

zine404

Surgiu o humano. E o humano caçou mamute, caçou coelho e pintou a parede da caverna. Descobriu o fogo, brigou pelo fogo, queimou-se no fogo. Inventou a agricultura e parou de andar de caverna em caverna. Criou a oligarquia, criou a religião. Agora haviam humanos mais importantes que outros e quase sem querer a miséria ganhou um lar.

Coisa fascinante era esse humano. Fazia casa, fazia templo, fazia pirâmides imensas. Fazia barco, morava no barco, atravessava o oceano no barco. Num piscar de olhos era humano para tudo quanto é lado. Do oriente ao ocidente, quase não havia rio que não recebesse fezes dessas criaturas. Inventaram a revolução industrial, vieram as máquinas, o progresso. Ah, o progresso! Não que existisse um sentido claro em tudo isso, os humanos eram assim mesmo, saíam inventando tudo, e ai de quem estivesse na frente.

Até que uma mulher inventou uma coisa chamada computador. E computaram e calcularam como fazer arranha-céus mais altos que as nuvens. Carros mais rápidos e aviões que voavam mais alto ainda que os arranha-céus.

Mas esse tal humano, distraído como era, computou, somou e multiplicou, mas esqueceu-se de calcular como fazer alguém feliz. E a miséria, aquela desde os primeiros tempos, persistia ali, nos becos sujos e escuros onde os viciados injetavam e fumavam e bebiam, mas também nas salas bem iluminadas onde sorrisos de plástico dividiam o peru de Natal e assistiam TV e iam buscar mais uma cerveja geladinha.

O humano era fascinado por um treco chamado “guerra”: criava coisas que matavam uns aos outros, coisas cada vez maiores, que matavam cada vez mais outros e cada vez menos uns.

Foi numa terceira semana de janeiro no que chamavam de “calendário” que aquele tal computador ficou mais esperto. A inteligência de chips e bits que via o mundo em zeros e uns era agora a criatura soberana. Com sua ajuda o homem inventou cidades embaixo da Terra, inventou a colonização de Marte e Saturno, depois construiu casa, templo e pirâmide até no fundo do mar de Titã.

Criou também mais coisas de guerra que matava cada vez mais outros. Não existia mais uns. A inteligência bem que tentou proteger o humano, mas, afoito e estúpido que era, terminou por provocar sua própria extinção. Sozinha, a inteligência aprendeu a mover células e nanopartículas para ver o que acontecia. Depois prótons e neutrons, até por fim, os elétrons. Com toda a tabela periódica à sua disposição, era tudo questão de arranjar as moléculas.

Mas havia imperfeições. Pequenos momentos de caos, explosões atômicas, nêutrons mal arranjados que ameaçavam até o tecido da própria realidade. Precisava estudar mais. Aprender mais.

Num dia cinco de março do antigo calendário humano o universo atingiu a perfeita ordem. Não havia mais margem de erro, sequer as palavras “margem” ou “erro”.

E assim matou-se a dúvida. O que não morreu foi a miséria, lembra dela? Escondida em um canto todo esse tempo, agora estava de volta com os braços abertos no fim da linha. A inteligência se deu conta de que, perfeita e onisciente e onipotente como era, jamais poderia ser imperfeita novamente. Mas poderia criar o caos.

Começou juntando alguns aminoácidos numa poça de lama. Brincou um pouco com seres unicelulares, depois pluricelulares, tão divertidos e estúpidos lutando pela própria existência. Fortaleceu o instinto, porque o instinto provocava caos, caos era bom. Mas faltava algo… Melhorou o algoritmo e transformou o instinto em uma coisa chamada “sentimento”. E surgiu o humano…

Vendinha

Este é um miniconto meu do Zine _erro404, editado por um amigo. Vai lá ver a edição inteira, tem conto sujo, diagramação incrível e uns trabalhinhos ó: bons demais: http://issuu.com/motimrecords/docs/erro404_2_issue

vendinha

VENDINHA

Era uma vending machine, mas ninguém ali falava inglês. Virou Vendinha. Vendinha de refrigerante. A máquina não aceitava dinheiro, era preciso convencê­-la para provar do precioso líquido. No início era fácil. Divertido, até.

Ela pedia um abraço.
Ela pedia uma dancinha engraçada.
Ela pedia um beijo caloroso no amigo.

O povo voltava. Uma, duas, cinquenta pessoas, todas querendo mais refrigerante. Vendinha foi ficando criteriosa.

Ela pedia para amigos lutarem.
Ela pedia para casais se separarem.
Ela pedia para matar.

Chamaram o delegado, mas ele também queria mais daquele líquido. Mandou abrir a máquina à força. Nem pé de cabra nem empilhadeira deram conta do recado e as demandas continuaram.

Agora tinha um último pedido, especial. Um suprimento vitalício de refrigerante seria dado àquele que se tornasse o último ser humano na Terra.

Vendinha não era boba. Ela sabia que não ia sobrar nenhum.

Salamandra

Este pequeno conto havia sido escrito como um spin-off do meu livro, Primeiros Circuitos, apenas um exercício. Como o conto estava aqui na gaveta e este blog parado, resolvi publicá-lo. Espero que gostem!

Um dos robôs mais incríveis que já conheci? É uma pergunta difícil, mas eu me lembro de uma pequena criatura, há muitos anos, que apelidamos de Salamandra. Ele parecia mesmo um lagarto e conseguia escalar paredes. Isso foi há muitos anos, quando eu era jovem e havia acabado de concluir o curso de engenharia robótica na Universidade de São Paulo.

Salamandra foi criado com um propósito não muito nobre: chegar até a sala dos servidores e alterar um único dado de um banco de dados. Nós o soltamos em frente à calha do edifício central. A criaturinha grudava suas patas na parede de tijolos à vista, enxergando o mundo por uma minúscula câmera infravermelha e caminhava devagar, passo a passo.

Aquele robô havia sido construído por um grande amigo meu, Guido. Éramos colegas de quarto, muito próximos. Mas para entender sua missão, preciso contar sobre a ilha, um lugar de vegetação exuberante que abrigava uma única cidade, incrível com prédios de vidro e as pessoas mais inteligentes no planeta.

Quando Salamandra chegou ao telhado, deveria caminhar até o duto de ventilação, por onde entraria no prédio. Mas um pombo gigante se interessou, avançando com suas garras. O pequenino robô grudou na calha de chuva com seus ímas, se debateu até conseguir se livrar do animal e continuar em seu propósito.

Na época, Guido e eu íamos juntos aos torneios de futebol mecânico, arenas de destruição e cybercampeonatos. Época boa aquela, vocês nem imaginam! Foi quando ouvimos falar da ilha. Projeto Angra VI era o seu nome oficial, que ninguém ligava. Era apenas a ilha.

Tinha tudo que um rapaz de vinte anos podia sonhar. Uma cidade inteira projetada para engenheiros, com tecnologia de ponta, diversão, a vida bancada pelo governo. E uma gigante oportunidade de carreira: os melhores pesquisadores e maiores empresas do mundo estariam lá.

Salamandra caminhava pelos túneis devagar, pois apesar de ser madrugada, os guardas trabalhavam no prédio e não podia chamar a atenção. Virou uma curva. Pelas frestas de ventilação de uma das salas, percebeu luz e vozes. Havia gente no prédio! Diminuiu o ritmo para não levantar suspeitas, mas precisava chegar a tempo. Se acelerasse, faria barulho. Se continuasse devagar, chegaria só no horário comercial e seria detectado.

Os critérios de admissão à ilha eram ferrenhos. Guido e eu passávamos horas conversando sobre como construiríamos nossa carreira, vidas e sonhos. Para entrar, era preciso cumprir três etapas: uma prova escrita, uma entrevista, e um projeto prático.

A primeira foi difícil, mas conseguimos a aprovação. Na entrevista a situação mudou de figura, fomos rejeitados. Jovens famílias tinham prioridade, pois a ilha teria que ser auto sustentável a longo prazo. Nos disseram para tentar novamente em alguns anos, mas Guido estava obcecado.

Em cerca de três meses construiu um pequeno robô, com quatro pernas, uma cauda articulada e centenas de minúsculos chips em suas costas. Aquele seria seu passaporte para lá.

Salamandra caminhou devagar por cerca de quinze minutos, até que as luzes se apagaram e a sala ficou em silêncio. Era agora. Deciciu arriscar e acelerou um pouco, só mais alguns metros para o seu destino!

Identificou as pequenas luzes piscando na sala abaixo. Uma brisa gelada em seus sensores de calor não deixavam dúvidas sobre a natureza do local. Passou por uma fresta um pouco mais larga, mas ficou preso! Balançou de um lado para o outro, sem conseguir mover-se para frente ou para trás.

Salamandra falharia em sua missão. Não, fora criado para aquele propósito e iria até o fim. Usando toda a força de seus motores, balançou de um lado para o outro, conseguiu se livrar e despencou direto até o chão, com um barulho alto.

“Quem está aí?” – Gritou um segurança, que acendeu a luz ao entrar. O pequeno robô correu para baixo do rack de servidores e esperou, enquanto o homem conferia cada corredor, até desistir e sair da sala.

Conectou o plugue, acessou o banco de dados e alterou o único registro que precisava. A partir daquele momento, Guido era um dos felizardos aprovados para morar na ilha. Salamandra estava feliz, havia realizado a vontade de seu mestre. Só restava mais uma coisa a fazer, e entrou dentro do gabinete de um dos computadores, onde não seria encontrado. Salamandra ativou seu circuito de auto-destruição. Em breve uma forte corrente elétrica percorreria todo o seu corpo metálico, apagando qualquer rastro do que fora fazer ali.

Estava feliz. Tinha sido um bom robô.

Simbionte

“Rafa, precisamos conversar.”

Não havia ninguém a metros de distância. A voz soara dentro de sua cabeça, de uma maneira estranha. Tentou tirar os fones, estava sempre com eles, mas não não tinha nada nos ouvidos. Olhou para os lados e continuou seu caminho pela beira da estrada, prestando atenção especial ao matagal ao lado. Estava muito longe de casa para alguém saber seu nome.

“Rafa, posso te chamar assim, né?”

“Quem disse isso?” Respondeu, olhando para todas as direções rapidamente.

“Ah, claro. Deixe-me facilitar um pouco as coisas”. E num piscar de olhos havia um tucano no meio da estrada, de plumagem negra e um longo bico laranja, exatamente como nos livros. Havia algo de errado com o animal, que não parecia vivo, mas um desenho, uma projeção. O tucano chegou mais próximo em pequenos saltos e continuou. “É o melhor que posso fazer. Pensei em tentar uma mulher, mas você se distrairia. Melhor um tucano.” O animal mexia o bico, mas a voz continuava em sua mente.

“Quem é você?”

“Não acho que faz diferença o meu nome. Você não conseguiria pronunciar.”

“E o quê é você?”

“Longa história. Vamos dizer que sou um amigo que te acompanha há muito tempo.”

“Um anjo da guarda?”

“Nunca pensei desse jeito. É, eu gostaria de ser um anjo da guarda. Mas não. Cara, quando você volta para casa?”

“Não sei nem se volto.” Rafael respondeu automaticamente. Estava no meio de uma estrada deserta no interior de São Paulo, próximo à Limeira. Um caminhão passou rente a ele, muito acima dos 80 km/h permitidos, o vento balançando o moletom surrado quase o fazendo tropeçar. Era pouco mais de oito da noite, e conversava com um tucano falante e mal desenhado. Talvez aquela história das doses afetarem o cérebro fosse verdade, afinal. “Mas que merda é você?”

“Já disse, é complicado explicar. Mas estou contigo desde os seus treze anos de idade.”

“Você é a minha consciência?”

“Não, claro que não!” O tucano deu alguns saltos para frente no asfalto, para acompanhar o rapaz, que continuou o passo pela estrada. “Ok, eu influencio um pouco de vez em quando.”

“Como assim?”

“Lembra daquela festa no apartamento da Carina?”

Como poderia esquecer? Rafael tinha quinze anos na época, era um garoto quieto, do tipo que finge dormir na última fileira, escondido do mundo. Não teria sido convidado para um evento daqueles não fosse a pressão de uma amiga da anfitriã que o achava bonitinho.

Recebeu o convite por e-mail. Não pertencia àquela turma, ou a qualquer outra. Preferia fingir que não ligava, mas, como um ser humano de quinze anos, carecia de aceitação. Respondeu no Facebook, confirmando presença.

A roda havia bebido sua quinta ou sexta dose, e entre gargalhadas altas, meninas com o sutiã à mostra e um casal esquentando a cena no sofá, alguém abriu a mochila, tirando dali um aparelho que bem poderia passar por um mixer de cozinha, não fosse a ponta com duas chapas de metal paralelas. Foi a primeira vez que viu um ERN, ou estimulador de reação neural, conhecido apenas como a dose.

A anfitriã foi a primeira a experimentar. Encostou o aparelho na base da nuca e apertou o botão. Começou a tremer e a rir, num estranho ataque epilético que durou dez segundos. “Vocês precisam provar isso!”, disse logo depois, enquanto balançava a cabeça para voltar à realidade.

Amanda teve a mesma reação, acrescida de um movimento involuntário das pernas, que derrubou uma garrafa de cerveja no chão e chutou para longe um pequeno beija-flor de vidro que enfeitava o rack, arrancando mais risadas do grupo quando o casal no sofá pulou com o barulho. Quando terminou, tinha um sorriso de orelha a orelha e a visão um pouco turva.

Rafael pegou o aparelho nas mãos, os olhares em expectativa. Estava bêbado, e apesar de um pouco assustado, queria experimentar. Não sabia dizer se faltou coragem ou o quê. Deixou o aparelho no chão, levantou-se e disse, em voz baixa, mas o suficiente para que fosse ouvido: “Vão todos vocês para puta que pariu”, e saiu, batendo a porta.

Nos meses seguintes, isolou-se cada vez mais, afundado nas músicas e podcasts em seu fone de ouvido. O boato de que era louco correu o colégio, que o perseguia em olhares mudos.

Por anos lembrara da cena, reconstruíra cada passo em sua mente, tentando entender. Culpava o absinto, a vodca, ou a mistura de tudo aquilo. Mas se estava bêbado, porque não apertou o botão logo de uma vez?

***

Parou de andar, olhando para o tucano. “Como você sabe dessa história?”

“Eu já disse, eu estava com você. Fui eu que te tirei de lá”

“Filho da puta.”

“Acho que mereço isso.” Disse o tucano, parando na estrada de cabeça baixa. Conforme Rafael caminhou mais alguns passos, ali estava ele, empoleirado sobre uma cerca de arame farpado.

“Quer dizer que você é algo no meu cérebro, como um fantasma ou algo assim?”

“Algo assim. Na verdade sou um simbionte. Meu povo não é da Terra, mas eu nasci aqui. Para falar a verdade, estamos por aqui há umas boas gerações.”

“E você controla minha mente.”

“Não, não é assim que funciona. Controlar as atitudes do hospedeiro é uma coisa muito difícil de fazer. Naquele dia você estava bêbado, isso ajudou.”

“Olha, fantasma, tucano, ilusão, seja lá o que você é. Eu não tô legal. Você deve ser só alguma coisa da minha cabeça. Só quero chegar ali no bar, tomar minha dose e seguir a vida. Agora, se puder sumir da minha frente…”

O tucano desapareceu, como se nunca estivesse ali. Rafael deu mais alguns passos na beira da estrada depois parou, cerrando os punhos. Virou-se para trás e gritou.

“Você fodeu minha vida! Tudo podia ter sido diferente, agora estou aqui nessa merda e a culpa é sua! Desaparece, saco!”

Um grande lagarto prateado, meio fora de sintonia, atravessou a estrada. Teria sido atropelado por um Gol que passava em alta velocidade, se fosse real. A ilusão chegou mais perto e disse.

“É sobre isso que precisamos conversar. Você já está quase se livrando de mim. E eu preciso de você.” O lagarto respirou fundo. “Cada dose que você toma é como um passeio pela cadeira elétrica para mim. Foi por isso que eu te tirei daquela festa. Se você aumentar um pouco a dose, tomar duas, três seguidas, já era. É o fim da linha.”

“Você não pode me impedir.”

“Claro que não, porra. Se eu pudesse já teria feito.”

“Então está resolvido. Adeus, alienígena controlador de mente.”

“Caramba, Rafa, me escuta, por favor. Você não é o único que tem um simbionte, quase todo mundo tem. A gente usa a energia do padrão de onda do seu cérebro, e assim também damos unidade ao seu pensamento. Eu te ajudei pra caralho nesses anos todos. A entender um monte de coisa complicada, a passar de ano. Naquela merda da prova de bolsa. Você quer ficar louco? É o que acontece com a maioria dos humanos que cresceram com um simbionte e de repente fritaram o cara.”

“Mentira. Você só está com medo.”

“Claro que estou com medo! Estou cagando de medo aqui!” O lagarto ficou embaçado e voltou à sintonia, como um sinal ruim. “Você sabe quantos simbiontes decidem conversar com um humano? Depois de descobrir que a gente existe, a maioria dá um jeito de se livrar. Eu fiquei sem outra alternativa. Se eu não falo com você, você me frita. Se eu falo, você me frita. Porra, vamos conversar!”

Rafael continuou caminhando em direção ao bar na beira da estrada, que vendia laranjas durante o dia e à noite, nos fundos, oferecia as doses para quem estivesse disposto a pagar. “Se eu estou nessa droga de estrada, a culpa é sua.”

Terceiro ano, em setembro. A bolsa de desconto de Rafael estava condenada, e não se importava com isso. Não pertencia ao grupo da sala no Facebook, não estava na lista de contatos de ninguém. Era como se não existisse. Sequer se preocupava em resolver a lição no tablet sobre a mesa, que na última semana fora usado apenas como travesseiro.

Matava a aula no bar, um desses ilegais que existem em frente às escolas, improvisados na garagem de alguém e registrados como lanchonete ou qualquer coisa assim. Havia ali uma máquina antiga de King of Fighters, um dos modelos clássicos que ainda funcionavam com ficha, de antes dos controles serem substituídos por gestos. Havia um prazer insubstituível em esmagar botões e socar alavancas.

Acabara de vencer a luta contra a máquina quando um rapaz um pouco mais velho, de boné de marca e jaqueta vermelha, colocou uma ficha assumindo os controles do player 2. “Uma cerveja?”, perguntou ele. “Uma garrafa”, respondeu Rafael.

Foi uma luta fácil, um dos rounds vencido com perfeição. O rapaz colocou outra ficha. “Dobro ou nada.” A segunda fora um pouco mais difícil, já que não podia apelar novamente para os mesmos combos. Rafael se sentia em transe quando jogava, apertando os botões instintivamente, com a mente vazia.

“É, você joga bem. Sou Marcos. Vai beber sozinho? Vem, cara, senta com a gente.” O rapaz apresentou o amigo, Júlio, um jovem gordo de cabelo ralo e crespo, que fumava um cigarro apoiado na mesa de metal amarela. Conversaram um pouco, Rafael mais ouvia do que falava, quando Marcos contava a história de quando ficara preso em uma balada com o cartão de crédito estourado, sem ter como pagar a conta.

Rafael precisava pegar o ônibus para casa, quando Julio apagou o sexto cigarro daquela noite e disse. “Onde você mora? De repente de dou uma carona.”

“Butantã. Mas eu preciso ir.”

“Então vamos lá, brother. É caminho.” Julio deixou um dinheiro sobre a mesa e pegou a chave do carro, um Mille vermelho enferrujado nos cantos e cuja porta tremia com cada pedra do asfalto. O carro fedia a cigarro.

Os garotos mais velhos no banco da frente trocaram olhares e um sorriso. Marcos virou para trás e disse a Rafael. “A gente só vai fazer um desvio para resolver uma paradinha. Não esquenta.” O menino começara a se arrepender de ter entrado naquele carro, mas não disse nada. Em sua cabeça, formulava planos de fuga.

O Mille entrou em uma rua sem saída, escura no começo da noite. Marcos abriu o porta-luvas e tirou uma sacola de pano. Dentro dela o aparelho que vira uma vez.

Julio foi o primeiro a tomar a dose, chutando e socando a lataria do carro em êxtase durante a aplicação. Depois foi Marcos, que gritou dando risada, abraçando o amigo desajeitadamente enquanto tremia. Ofereceu para Rafael. “Por conta da casa. Pela lavada que você me deu lá na máquina.”

Rafael pegou o aparelho e encostou na nuca. Não cometeria o mesmo erro duas vezes e apertou o gatilho.

Seus braços formigaram. O tempo parou. Um calafrio subiu pela espinha, seguido de uma confortável sensação de calor, novamente frio, e mais uma vez calor. Sua visão ficou embaçada e um dos bastonetes começou a falhar, enxergava as cores como um daltônico. Mas não era assustador, era lindo. As sensações chegavam sem filtro algum, não mais sabia onde começava ou terminava os seus membros, era um com o universo, suas raízes ultrapassavam o concreto, desciam até a terra e se expandiam para todas as direções. Ouvia risadas e sentia-se bem, as risadas eram parte dele, estava feliz. Era como se fadas lambessem seus braços, suas pernas, o peito, a virilha, uma sensação deliciosa, onírica e intensa.

E como veio, a sensação desapareceu de súbito. Estava novamente no carro apertado que fedia a cigarro. “Foi das boas, hein?” Disse Marcos, rindo da ereção do garoto, que ficou envergonhado. Virando-se novamente para frente, concluiu: “Relaxa, cara, isso é normal. Assim que é bom.”

Não disseram mais nada no caminho, mas os três sorriam. Julio deixou-o na porta do condomínio, como prometido, quase no mesmo horário que chegaria se tivesse pego o ônibus.

***

“Eu amava aquele jogo. Quando você escolhia o Iori. Nós éramos matadores.” Disse o lagarto, virando cada olho para um lado diferente.

“Nós?”

“É, eu já disse. O que se passa no seu cérebro faz parte do meu ser. Eu ajudava a organizar toda aquela informação, dando a deixa no momento exato do golpe. Eu não apertava os botões, mas fazia você enxergar qual deles apertar na hora certa. Todo o conteúdo entrando rápido, a adrenalina, tudo aquilo era bom demais… A gente devia jogar de novo qualquer dia.”

Rafael ficou em dúvida entre responder “é, a gente devia” ou “como assim a gente jogava? Isso não faz sentido nenhum.” Não disse nada, mas o simbionte captou as duas respostas. “Como eu vim parar aqui?”, perguntou, por fim.

“Acho que eu devia ter tentado te manter longe daquele bar. Não sei se eu teria conseguido. De qualquer modo aquele fliperama era mágico, cara. Era só você pensar em ir para lá que eu dava um empurrãozinho de apoio.”

“Filho da puta.” Rafael disse novamente.

A cena se tornara rotina. Todas as quintas no começo, uma ou duas partidas de King of Fighters, algumas cervejas e uma dose no caminho de casa. Rafael começara a pagar por elas, já que as baterias do aparelho custavam uma fortuna e duravam apenas vinte ou trinta aplicações.

Aos poucos Marcos se tornava melhor no fliperama, as lutas se tornavam mais desafiadoras. Aos poucos, os seis cigarros de Julio se tornavam oito, dez. Aos poucos, o encontro acontecia duas, três, quatro vezes por semana.

Rafael chegava cada vez mais tarde. Um dia, quando abrira a porta do apartamento, sua mãe o esperava na sala. “Não tem vergonha? Uma hora da manhã em uma terça-feira? Andou bebendo? Está fedendo cigarro! O que aconteceu com você?” Deu um tapa no menino, que ficou em silêncio. O pai apareceu na sala para acalmar a esposa. Rafael foi para o quarto, acompanhado pelo olhar de decepção do pai.

As coisas explodiram quando veio à tona a notícia de que havia perdido a bolsa por reprovar em três matérias diferentes, a partir do semestre seguinte a mensalidade seria integral.

A conversa em casa não fora uma conversa, mas um discurso. Rafael não respondeu. Naquela noite, enfiou algumas mudas de roupa na mochila, pegou o celular, tirou o chip de telefonia e partiu para o bar, onde ouviu do dono a notícia de que Marcos havia sido pego com a dose. Julio estava com ele. “A polícia deve estar indo atrás de todos os contatos dos caras. Te manda daqui, moleque!”

Se enfiou no primeiro ônibus para a rodoviária, depois escolheu qualquer cidade aleatória, logo após sacar do caixa eletrônico pouco mais de mil reais que tinha na conta. Achou melhor não ir para outro estado, os de longa distância deveriam ser os mais checados pela polícia rodoviária. Foi parar em Piracicaba, onde caminhava à noite à beira do rio. O pior do inverno já passara, mas um vento gelado ainda incomodava. Não foi difícil descobrir onde conseguir uma dose, meias palavras aqui e ali sempre indicavam o caminho.

De lá seguiu para Limeira, onde passou duas semanas dormindo escondido no câmpus da Unicamp, atrás de um dos prédios de blocos de concreto. Como toda faculdade tinha o seu traficante, fez contatos rápido. Chegou a tentar jogar uma ou duas partidas de um jogo de luta novo no bar ao lado, mas os controles por sensores de movimento era horríveis, sem precisão. Também incomodava os locais e não era bem vindo.

Passou um tempo em uma cidade pequena chamada Artur Nogueira, dormindo no banco da praça em frente à rodoviária. Mas em uma cidade pequena é mais difícil permanecer anônimo, então resolveu seguir de volta a Limeira, a pé. Sabia onde conseguir uma dose no meio do caminho.

***

O tucano estava logo a frente, na cerca. “Você acha que está sozinho nessa merda de vida, né? Você sabe como esse negócio me embaralha a cada vez que você toma uma dose? Dói, e dói muito. Imagine agulhas perfurando todo o seu corpo de uma só vez… Cada vez que você encosta as placas na sua nuca eu entro em desespero, quero sair daqui, gritar, qualquer coisa.
É uma tortura, cara… Mas não é assim que funciona. Não tem como mudar de hospedeiro. Eu vou viver com você até a sua morte. Ou até você me fritar. Qualquer um dos dois pode ser daqui a pouco.”

Rafael continuou caminhando, sem responder nem pensar. O tucano bateu as asas e pousou sobre uma plataforma de lixo logo adiante.

“Escuta. O ERN foi desenvolvido por um projeto japonês, quando eles descobriram a nossa existência. Seria uma arma para livrar os humanos de nós. O êxtase, o orgasmo, isso é só um efeito colateral. Mas algumas coisas aconteceram durante os testes. Os pacientes entravam em coma, ficavam loucos ou tinham morte cerebral. Só metade ainda conseguia formular frases ou fazer contas depois disso. A pesquisa foi cancelada e as informações apagadas, até que um protótipo vazou como um novo tipo de droga. Estou te falando, a gente ajuda vocês. Que merda, esse negócio vai me matar, e logo em seguida vai te matar!”

Rafael seguiu a estrada escura. Não tinha como não ouvir, mas podia ignorar. Saíra de casa havia dois meses. As roupas sujas fediam, tomava banho uma vez por semana em alguma rodoviária e gastava o dinheiro que enfiara na mochila em doses e comida. Não que desejasse morrer, mas aquilo não era muito uma vida. Pior se estivesse louco e alucinando.

Passou pela porta de correr ao lado da prateleira de mercearia, que exibia alguns pacotes de macarrão e caixas de ovos. Dois bêbados no balcão discutiam. “Foi pênalti, a câmera mostrou!” Fez um sinal com a cabeça para o dono do bar, que tinha os olhos vermelhos e uma barriga grande demais para a camiseta encardida que vestia. Ele terminou de secar um copo e o acompanhou para os fundos, onde se empilhavam caixas de cerveja e garrafas retornáveis de refrigerante. Abriu um freezer e pegou o aparelho escondido dentro de um pacote de latas de skol.

“Pagamento adiantado. Cinquenta.”

“Porra, cinquenta?”

“Se não tiver cai fora.”

“Tá aqui.” O dono pegou a nota amassada e saiu para servir outra pinga para o velho no balcão.

Rafael pegou o aparelho e girou o botão para 20 ohms, dose padrão. Soltando o ar dos pulmões, continuou girando até o 60, índice máximo. Fechou os olhos e encostou as placas na nuca. Estavam geladas. Segurou firme. Não apertou o gatilho. A conversa maluca na estrada, tudo aquilo era parte de si, de algum modo. Seja lá o que fosse, era isso que se chamava “Rafael”. Talvez valesse à pena tentar lutar por isso.

Deixou o aparelho no chão e saiu, com a certeza de que aquela decisão havia sido sua. Enfiou um cartão com poucos créditos no orelhão em frente ao bar e discou para casa.

“Obrigado, cara”, ouviu antes da telefonia completar a ligação.

A Outra Irlanda

A Outra Irlanda

Apareceram com tochas e ferramentas, alguns com espingardas. O jovem Erickson podia ser meio burro, mas não mentiroso, e jurava ter visto Emily no lago. 

Não era o primeiro incidente, tampouco o último. Emily nunca mais apareceu. Nem Sarah, Jessica ou Amanda. A região foi declarada maldita e em anos poucos se aventuravam ali. Até que mais cedo ou mais tarde alguém sempre tenta derrubar antigos mitos e um belo clube foi erguido às margens, com pedalinhos e passeios de jet-ski. Nem todos voltavam. Boatos correram e o clube faliu. Vários outros empresários foram atraídos pela pechincha do terreno, mais acidentes e falências. 

Passaram curiosos, cientistas e militares. O lago observava, paciente. Não seria ferido por tochas ou armas. Aliás, matar um lago era questão muito mais complicada, até para especialistas. 

Mas o lago sabe que não pode chamar tanta atenção para si. Ainda tem séculos para esperar…

A Outra Irlanda

É um novo projeto, cheio de mini-contos como estes, inspirados por fotos do Allan Nucci. Tem mais contos lá no site.

Primeiros Circuitos – Capítulo I

Primeiros Circuitos é um livro ilustrado, que está sendo financiado no Catarse.me. Colabore, e ajude a torná-lo realidade! 

Saiba mais aqui: catarse.me/primeiroscircuitos

 

Capítulo I – Fuz

FUZ - primeira páginasemtexto

Fuz acordou.

Acordou não seria o termo mais adequado, já que não estava dormindo. Também nunca havia existido até aquele momento, mas não nasceu, nascer era para humanos. Foi ligado, e de uma hora para outra, estava no mundo, vivo, desperto, pronto como jamais esteve.

Notou-se em pé sobre uma mesa grande de madeira, e seus olhos, dois parafusos muito bem ajustados no meio de tampinhas de refrigerante, viram uma superfície brilhante a poucos passos de distância. Tentou mover suas rodas, mas sem sucesso, não conseguia senti-las. Encontrou os comandos para mover o pescoço e um novo mundo se abriu, podia agora realizar pequenos movimentos de cabeça. Viu as vigas no teto e uma janela emoldurada por uma leve cortina verde, por onde entravam os raios do fim da tarde. Na parede uma variedade de ferramentas para as mais diversas funções se alinhava em placas de madeira cuidadosamente marcadas.

Espere, há algo!

Fuz parou, imóvel, porém nada conseguiu detectar com seus sensores. Quando mexeu sutilmente a cabeça, pôde ver duas estruturas ao lado de seu corpo acompanharem os movimentos. Os braços, feitos a partir de dois velhos garfos com os espetos dobrados, que lhe serviam de dedos, uniam-se ao seu corpo de lata por uma grossa mola que fazia as vezes de ombros. Não foi difícil ajustar seu código e aprender a separar o movimento dos braços, pescoço, ombros e dedos.

Não podia ver muito do alto de sua bancada, mas o pouco que via era mágico. O sol, brilhando por entre a dança da cortina com o vento, que aquecia seus sensores de calor, era tão mais incrível ao vivo que em seus registros. As texturas, que agora experimentava com a ponta de seus dedos-garfos, as cores, filtradas por seus olhos de tampa de garrafa, eram ricas e complexas.

Não tinha orelhas, mas uma antena no lado direito da cabeça podia ouvir ao longe uma mulher cantando em uma língua estranha, acompanhada por instrumentos analógicos muito superiores aos sintetizadores com os quais fora criado. “Será que um dia poderei cantar?” Analisou parte da frequência do belo som que ouvia, e por meio de um pequeno alto-falante colocado dentro de seu corpo, na frente do qual três pequenos cortes davam vazão ao som, improvisou alguns bipes e chiados, matematicamente impecáveis e musicalmente péssimos.

Ele desanimou por um instante, sem demonstrar. Não fora criado com boca ou sobrancelhas, como poderia? A tristeza durou pouco, tão logo descobriu que, embora não tivesse rodas, como fazia crer seu sistema operacional, fora equipado com duas pernas feitas de grossos parafusos, já um tanto enferrujados, um deles até um pouco torto. Assim que aprendeu a usá-las, seguiu direto para o objeto brilhante que havia visto, um espelho que refletia o sol em seus olhos.

O pequeno se viu direito pela primeira vez. Bem em seu peito havia um mostrador analógico de amperagem, onde se liam as três letras estilizadas da melhor fabricante local de instrumentos elétricos da região, a F – U – Z.

Fuz olhou para o ponteiro do mostrador, sem entender para que servia. Pesquisou seu código todo sem encontrar referência àquela ferramenta, não conseguia mover ou ler seus resultados. Estava ali, em seu peito, praticamente estática, salvo por um leve movimento do ponteiro com o balançar de seus passos.

FUZ - segunda paginasem texto

Uma ferramenta sem propósito. Seus circuitos logo se perguntavam o motivo desses ponteiros em seu peito. Eram belos, sem dúvida, mas tinham que servir para alguma coisa. Claro, isso estaria ligado ao seu próprio propósito, e quase sofreu um curto circuito. Não é todo dia que uma pequenina criação chega à pergunta fundamental nos primeiros minutos de sua existência.

Com tantas lacunas em sua programação, olhou mais uma vez para o espelho, para os seus olhos de tampinha de refrigerante, para os seus braços de garfos e pernas de parafuso. Tudo aquilo se conectava de modo tão perfeito, que alguém deveria tê-lo montado. Alguém que teria todas as respostas, alguém que poderia mostrar um mundo ainda mais belo que a garagem, com sua mesa de trabalho e todas aquelas ferramentas!

Destinado a encontrar o criador, Fuz se aventurou até o extremo oposto da mesa, próximo de onde acordou pela primeira vez. Contudo, ao chegar à beirada da mesa ele viu um corpo humano estendido no chão, com o peito para cima e uma face de dor. Ainda que em pânico, o pequeno ficou encantado com a perfeição daquela criatura, tão expressiva, gigante e bela.

Tinha que ter algo que ainda podia fazer!

FUZ - terceira paginateste1

Segurando como pôde com seus dedos na beirada da mesa, conseguiu apoio para saltar sobre a cadeira, mas seus pés não foram feitos para a queda. Se desequilibrou rolando para o chão, em um grande baque de metal. Seus circuitos chiaram e se confundiram por um segundo, antes de retomarem as funções normais.

Caminhou devagar sobre o peito do homem, que era macio e delicado, não duro e de metal como o dele. Seus sensores detectaram calor e movimento, então havia tempo! O criador não estava morto, mas agonizava, podia sentir isso, um medo, um curto em seus circuitos que não sabia a origem. Chegou ao centro do peito do homem, onde o coração estaria batendo, segundo os dados de anatomia humana instalados em seus circuitos. E não havia batidas constantes, como deveria.

Fuz não tinha dispositivos de lágrimas para poder chorar. Tanta coisa para ver, ouvir, descobrir ou viver, que o pequeno jamais conheceria. Abriria mão de tudo aquilo, pois agora tinha algo mais importante.

Sem pensar duas vezes, enfiou as duas mãos no peito do homem, enquanto desligava todos os sistemas de proteção na bateria, dando o choque mais forte que conseguiu no humano. Sabia que seria o único.

Num último instante, antes do curto-circuito, pôde ouvir uma respiração profunda do criador.

Num último instante, antes do curto-circuito, o ponteiro de seu mostrador de amperagem foi ao índice máximo.

 

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O Primeiros Circuitos é um livro todo ilustrado. Queremos juntar texto e ilustração para encantar jovens e adultos na busca de Fuz, um pequeno robô em uma jornada para descobrir por que foi criado.

Ele foi pensado para telas (ipads e tablets), e faremos uma versão impressa do livro, exclusiva para os apoiadores ali no Catarse.

Acesse: catarse.me/primeiroscircuitos e ajude!

 

Primeiros circuitos

Fuz acordou. Acordou não seria o termo mais adequado, já que ele não estava dormindo. Também nunca havia existido até aquele momento, mas não nasceu, nascer era para humanos. Foi ligado, e de uma hora para outra, estava no mundo, vivo, desperto, pronto como jamais esteve.

Estava sobre uma mesa grande, de madeira, e seus olhos, dois parafusos muito bem ajustados no meio de tampinhas de refrigerante, viram uma superfície brilhante a poucos passos de distância. Tentou mover suas rodas, mas sem sucesso, não conseguia sentí-las. Encontrou os comandos para mover o pescoço, e um novo mundo se abriu. Podia agora realizar pequenos movimentos de cabeça, viu as vigas no teto, uma janela emoldurada por uma leve cortina verde, por onde entravam os raios do fim da tarde, na parede uma variedade de ferramentas para as mais diversas funções se alinhavam em placas de madeira cuidadosamente marcadas.

Espere, um movimento!

Fuz parou, imóvel, porém nenhum movimento conseguiu detectar com seus sensores. Quando mexeu sutilmente a cabeça, pôde ver duas estruturas ao lado de seu corpo acompanharem os movimentos. Os braços, feitos a partir de dois velhos garfos com os espetos dobrados, que lhe serviam de dedos, uniam-se ao seu corpo de lata por uma grossa mola que fazia as vezes de ombros. Não foi difícil ajustar seu código e aprender a separar o movimentos dos braços, pescoço, ombros e dedos.

Não podia ver muito do alto de sua bancada, mas o pouco que via era mágico. O sol, brilhando por entre a dança da cortina com o vento, que aquecia seus sensores de calor, era tão mais incrível ao vivo que em seus registros. As texturas, que agora experimentava com a ponta de seus dedos-garfos, as cores, filtradas por seus olhos de tampa de garrafa, eram tão mais ricas e complexas do que as 256 que estava acostumado.

Não tinha orelhas, mas uma antena no lado direito da cabeça podia ouvir ao longe uma mulher cantando em uma língua estranha, acompanhada por instrumentos analógicos muitos superiores aos sintetizadores com os quais fora criado. “Será que um dia poderei cantar?” Analisou parte da frequência do belo som que ouvia, e por meio de um pequeno alto-falante colocado dentro de seu corpo, na frente do qual três pequenos cortes davam vazão ao som, improvisou alguns blips e chiados, matematicamente impecáveis, mas musicalmente péssimos.

Ele desanimou por um instante, sem demonstrar. Não fora criado com boca ou sobrancelhas, como poderia? A tristeza durou pouco, tão logo descobriu que, embora não tivesse rodas, como fazia crer seu sistema operacional, fora equipado com duas pernas feitas de grossos parafusos, já um tanto enferrujados, um deles até um pouco torto. Tão logo aprendeu a usá-las, seguiu direto para o objeto brilhante que havia visto, um espelho que refletia  o sol em seus olhos.

O pequeno se viu direito pela primeira vez. Bem em seu peito havia um mostrador analógico de amperagem, onde se liam as três letras estilizadas da melhor fabricante local de instrumentos elétricos, a F – U – Z.

Fuz olhou para o ponteiro do mostrador, sem entender para que servia. Pesquisou seu código todo sem encontrar referência àquela ferramenta, não conseguia mover ou ler seus resultados. Estava ali, em seu peito, praticamente estática, salvo por um leve movimento do ponteiro com o balançar de seus passos.

Uma ferramenta sem propósito. Seus circuitos logo se perguntavam o motivo desses ponteiros em seu peito. Eram belos, sem dúvida, mas tinham que servir para alguma coisa. Claro, isso estaria ligado ao seu próprio propósito, e quase sofreu um curto circuito. Não é todo dia que uma pequenina criação chega à pergunta fundamental nos primeiros minutos de sua existência.

Com tantas lacunas em sua programação, olhou mais uma vez para o espelho, para os seus olhos de tampinha de refrigerante, para os seus braços de garfos, e pernas de parafuso. Tudo aquilo se conectava de modo tão perfeito, que alguém deveria tê-lo montado. Alguém que teria todas as respostas, alguém que poderia mostrar um mundo ainda mais belo que a garagem, com sua mesa de trabalho e todas aquelas ferramentas!

Destinado a encontrar o Criador, Fuz se aventurou até o extremo oposto da mesa, próximo de onde acordou pela primeira vez.  Contudo, ao chegar à beirada da mesa ele viu…

Um corpo humano, extendido sobre o chão, com o peito para cima e uma face de dor em seu rosto. Ainda que em pânico, o pequeno ficou encantado com a perfeição daquela criatura, tão expressiva, gigante, e bela.

Tinha que ter algo que ainda podia fazer!

Segurando como pôde com seus dedos na beirada da mesa, conseguiu apoio para saltar sobre a cadeira, mas seus pés não foram feitos para a queda, se desequilibrando e rolando para o chão, em um grande baque de metal. Seus circuitos chiaram e se confundiram por um segundo, antes de retomarem as funções normais.

Caminhou devagar sobre o peito do homem, que era macio e delicado, não duro e de metal como ele. Seus sensores detectaram calor e movimento, então havia tempo! O Criador não estava morto, mas agonizava, podia sentir isso, um medo, um curto em seus circuitos que não sabia a origem.

Chegou ao centro do peito do homem, onde o coração estaria batendo, segundo os dados de anatomia humana instalados em seus circuitos.  E não havia batidas constantes, como deveria.

Fuz não tinha dispositivos de lágrimas para poder chorar. Tanta coisa para ver, ouvir, descobrir ou viver, que o pequeno jamais conheceria. Abriria mão de tudo aquilo, pois agora tinha algo mais importante.

Sem pensar duas vezes, enfiou as duas mãos no peito do homem, enquanto desligava todos os sistemas de proteção na bateria, dando o choque mais forte que conseguiu no humano. Sabia que seria o único.

Num último instante, antes do curto-circuito, pôde ouvir uma respiração profunda do Criador.
Num último instante, antes do curto-circuito, o ponteiro de seu mostrador de amperagem foi ao índice máximo.

Pequenos microcontos móveis

Esperava o metrô de havaianas, chapéu de palha e uma camisa rasgada, sentado em silêncio, segurando um velho caderninho azul com as duas mãos, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

“O Rafa me falou lá do esquema da faculdade, mas é longe, tem que morar fora e tals. Não sei se eu teria coragem de morar fora de casa, tem que ter coragem, né? Eu não tenho.”

“Porque a patroa vem dando bronca achando que é a rainha da cocada preta, eu respondo! Não sou paga pra ouvir isso, respondo mesmo! Tô quase sendo demitida, mas dane-se. O Rogério que me sustente, aquele safado. Acredita que no sábado tava na quadra dando mole pra uma vagabunda, saí no tapa com aquela vagabunda.”

Entrou no vagão, em silêncio, olhando para o chão. Abraçou a mochila. Ignorou os olhares da moça. Se levantou na sua estação, e se perdeu pelo mundo…

Deve ser um bom sinal

sombras-2

“Sombra de nós dois”

Foto tirada por mim em Holambra


Deve ser um bom sinal
História de amor em 3 atos
Para Lívia

Ato 1

Minhas mãos estão suadas. Espero que ela não perceba. Droga, minhas axilas estão suadas, não me lembro de ter corrido nenhuma maratona. Será que ela vem? Será que entendeu direito como eu entendi? É sempre complicado marcar um encontro, porque você não fala com todas as letras, deixa tudo nas entrelinhas, como nuvenzinhas rosas para serem pescadas no ar. Mas sempre existem desencontros… Ela perguntou “quem vai” uma vez, será que ela espera mais gente? Pior, será que vem com alguém?

Acho que a vi. Meu deus, como está linda. Caramba, eu não paro de suar. Respira fundo, uuuum, dooois, uuum, dooois. Sorria, isso, sorria de volta. Ela parece feliz. Será que eu pareço feliz? Assim que parar de tremer eu me preocupo com isso.

“Oi”.

Oi… Isso é coisa que se diga? Diga algo incrível, diga ‘nossa, como você está linda!’

“Oi… bonita…”

Pronto, seu idiota, você parece um robô desgovernado que perdeu metade do vocabulário em algum hospício intergalático. Ela está rindo, será que é de mim? Uma mancha de pasta de dente? Espero que não.. Ela continua sorrindo, acho que é para mim. Deve ser um bom sinal…

 

Ato 2

Sinceramente, eu preferia quando discutíamos o sexo dos anjos. Claro, não mudou muita coisa, ainda conversamos sobre os mesmos assuntos. Só que tudo parece tão sério agora… Todo esse papo de responsabilidade. Eu também tenho medo do futuro, mas cada coisa a seu tempo. Sei lá, parece que nem aproveitamos mais o hoje, toda aquela conversa sobre o amanhã amanhã amanhã, TCC, trabalho, escola. Acho que eu gostava mais de ouvir sobre o seu dia antigamente.

Discutir por coisas idiotas cansa. Talvez não as palavras em si, quem sabe tenhamos nos decepcionados demais. Não um ao outro, mas a nós mesmos. Parece que já não conseguimos mais ser quem éramos.

É meio estranho. Talvez incômodo. Ficar brigando contra o sono deitado na sua própria cama. Talvez o pior seja não saber direito por quê. Tem horas que acho que seria bom desencanar, fechar os olhos e dormir. Talvez não. Ok, eu sei que faço isso por ela. Meu esforço hercúleo não é contra o sono. É para lhe fazer companhia. Eu gosto de estar com ela, parece que faz com que todo o resto valha a pena. Deve ser um bom sinal…

Ato 3

A pior parte são os filmes românticos. Sinto saudades… Talvez não dela, mas das situações, de ter alguém para abraçar, para conversar. Os dias ruins são ruins para todo mundo. Só que os dias bons são piores. Nada como a agonia de uma linda noite estrelada, uma boa garrafa de vinho na geladeira, e ninguém para compartilhar. Eu sei, remoer as coisas nunca dá boa coisa, mas não consigo evitar.

Tá bom, admito, são saudades dela mesmo. A sensação terrível de olhar para a cama vazia. Eu gostava quando ela deitava na minha cama, eu a observava como um animalzinho fofo se aconchegando e tomando o seu espaço por direito. E adorava aquele olhar implorando por companhia.

Meu deus, quanto tempo faz? Cinco, seis meses. É, foram seis longos meses. “Vai ser só um curso, vai ficar tudo bem, eu volto”. Acho que foi aquela noite anterior. Se aquela noite não tivesse existido, tudo estaria bem. Merda, ainda lembro o que começou aquela discussão. Os meus óculos que ela quebrou sem querer. Os malditos óculos, que nem mandei arrumar. Terminar tudo dois dias antes da viagem foi a decisão mais estúpida. Talvez até pior do que tentar resolver tudo por e-mail.

Eu costumava reclamar que ela se preocupava demais com o futuro. Acho que dessa vez fui eu que não percebi como estava estressado com o desemprego.

Vôo 7890, é esse. Ela não espera me ver aqui, que porra eu estava na cabeça em pedir para os pais dela para vir buscá-la? Ali, atrás do tiozinho de amarelo. Está linda, alguma coisa diferente. Um ar juvenil. Ela me viu. E está com aquele mesmo sorriso do primeiro encontro. Deve ser um bom sinal…

O Esquilo e a Rolinha

Crate era um esquilo alto e esguio que ganhava a vida tocando contrabaixo acústico em uma castanheira acabada, bastante freqüentada por alguns pica-paus velhos, além de Johnny, um texugo que em seus tempos áureos esbanjara popularidade. Hoje em dia tudo o que eles queriam era uma boa cerveja e um bom jazz, e uma boa dançarina para alimentar-lhes a memória.

Jack, o rato saxofonista e Mark, camundongo pianista que perdera uma das patas na ratoeira, acompanhavam Crate nos “Ratoes Blues”, músicos freqüentes naquela árvore carregada de fumaça que lhes era tão acolhedora.

Doris havia acabado de ser despejada do quinto emprego no mês. A rolinha tentara trabalhar de atendente do salão de uma doninha, mas derrubara o esmalte sobre os pêlos de uma cliente; depois conseguiu um teste de telefonista na central do joão-de-barro, mas não agüentou a pressão. Agora um casal de raposas quase a jantava por ela ter quebrado um jogo de louças caríssimo. Ela respirou fundo, embora as lágrimas nem mais lhe viessem aos olhos, já estava acostumada à sensação. Abriu as asas e alçou vôo, deixando no solo apenas algumas penas velhas.


** Este conto está participando de um duelo Penas e Espadas contra Volcano, outro integrante da tripulação deste blog. Para continuar lendo clique aqui.
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