Então eu meio que resolvi sair do Facebook. Oh noes!

Quando comentei com minha esposa que havia decidido deixar o Facebook ela revirou os olhos e respondeu “a-ham, faz três anos que você fala isso”. Então tá! Mas como quem quer confete ao cancelar amizade em qualquer rede social, resolvi escrever um pouco sobre o assunto.

Porque eu meio que não vou sair. E as pessoas vão ficar confusas quando eu começar a perguntar onde é que dá para segui-las. E vou parar de curtir suas postagens, mas não é pessoal.

Meio que sair só que não

Só não saí ainda porque eu TRABALHO com mídias sociais. E uso o tal azulão para fazer muita divulgação dos meus projetos, freelas e textos. (Mas também me pergunto até que ponto isso não uma falácia. Nós postamos o trem no Facebook e está ticada a caixa “divulgação”, mesmo que a mensagem tenha sido mostrada só para sua mãe, seu cachorro e talvez a melhor amiga.)

É também a rede onde mantenho contato com escritoras e gentes lindas e bacanas que conheci nesses anos como editor da Trasgo e considero pacas. É duro ter que abrir mão disso. Ou não? O que é conexão e o que é ilusão?

Então eu não vou sair do Facebook. Eita, mas…?

Eu só vou deixar de seguir todo mundo. TODO MUNDO. A princípio, vou manter alguns grupos, porque a discussão ali ainda é interessante. E ainda vou receber as mensagens (embora eu volta e meia esqueça de responder ali). Ou seja, vou sair da timeline. Pelo menos tentar.

Então vamos para a outra parte. Por que sair dessa rede tão bonita, tão cheia de samba?

Mas por que diabos?

A timeline do Facebook é uma mistura daquela praça pública lotada cheio de vendedores mendigando sua atenção com aquele espaço íntimo de uma conversa entre amigos na sala de casa. O problema é quando aquele amigo não para de falar do crowdfunding dele até com a boca cheia do macarrão que você cozinhou com tanto carinho. E sua mãe resolve discutir sua hemorroidas em voz alta na praça.

Por causa das bad vibes

O maior problema disso são as bad vibes. Eu sei que lutar é importante. Mas na total falta de contexto que uma rede dessas oferece, eu me vi acalentando minha recém nascida no colo enquanto a rede me atirava duas histórias terríveis envolvendo bebês. Fiquei mal, muito mal. Essa situação só ilustra uma das várias pequenas formas que a rede me deixava triste e descrente quase todos os dias, como aquele vizinho que faz questão de bater na sua porta com o Notícias Populares debaixo do braço para contar dos últimos sequestros, assassinatos e escândalos políticos.

Existe um limite de quanto pinga-sangue você consegue absorver até que isso comece a prejudicar sua saúde psicológica. Eu percebia como isso atrapalhava minha escrita, meu dia a dia, e não fazia nada a respeito. Vibrações ruins é petróleo vazado no oceano, contamina sua visão de mundo, empapa suas asas, impede de voar. E com uma filha para cuidar, eu não preciso disso agora.

Outra coisa que começou a me incomodar muito foi uma falsa sensação de estar informado. Mas aí o viés da confirmação começou a bater forte (viés da confirmação é quando o Facebook só mostra as notícias que ele acha que você vá gostar, portanto que só reafirmam a sua visão do mundo, tornando qualquer um que não pense como você um perfeito idiota). Com a situação do país de mal a pior, golpe de estado e câmara mais retrógrada em um bom tempo, estava ficando ávido por qualquer argumento que conseguisse me dar a esperança de dois grupos pensando diferente, e não um moedor de políticas sociais.

Porque uma coisa é você ler um argumento contrário, discordar, e ter um pingo de esperança de que você esteja errado e que o melhor é realmente a política do outro (eu sei, tá difícil, BEM difícil, viver em 1832, mas continuemos). O Facebook não vai te dar o argumento do outro.

Porque o coiso é uma máquina que se alimenta de ultraje

Quanto mais ultrajado eu me sentir, maior a probabilidade de curtir, compartilhar, comentar, revoltar-me e aumentar ainda mais o vórtex temporal que consome horas do meu dia. E sim, você adivinhou, ultraje só aumenta as vibrações ruins.

E o risco de ficar por fora do lance dos amigos?

Outro dia descobri que um amigo havia terminado há certo tempo com a namorada de longa data. Moramos em cidades diferentes, trocávamos poucas mensagens sobre interesses em comuns. “Você não soube?”, ele me perguntou.

Nós postamos as coisas e imaginamos que todos os nosso amigos leram. Mas não, existe uma chance enorme de que o azulão não achou o seu post interessante o bastante para a maioria dos seus contatos, restringindo a aparição para somente uma dúzia de pessoas. O que eu quero chegar é que existe uma falsa sensação de duas vias.

– Nós postamos algo ali e imaginamos que todos já sabem quase tudo sobre as nossas vidas. Aí nós desaprendemos a contar as novidades, agindo como celebridades mimadas em frente a repórteres despreparados. “Nossa, você não viu que eu postei?”, seguido daquele azedume, se fosse amigo de verdade leria minhas coisas.

– E nós desaprendemos a perguntar e a nos interessar de fato sobre a vida das pessoas mais próximas. Parece que perdemos aquela coisa de se encantar com qualquer coisa que seja que esteja acontecendo com alguém, pensando que não há mais nada a descobrir. E como qualquer pessoa casada pode te contar, uma vida não é o bastante para conhecer alguém a fundo assim.

Mas e Autocontrole?

“Mas isso tudo é culpa sua, seu viciado.” Primeiro, tire o dedo do meu nariz, sim? Obrigado.

Sim, tudo isso que está escrito aqui acima é culpa da minha própria falta de autocontrole. Por um lado é verdade. E o que você faz quando se descobre viciado em açúcar? Corta o veneninho branco, ué. Por outro lado, o Vale do Silício emprega os melhores profissionais do mundo em sequestro de atenção. É você contra os maiores especialistas em te distrair. Complicado, não?

Mas você vai ficar por fora das novidades, dos eventos, de tudo o que está acontecendo! Vai se esconder numa caverna, cavar um buraco e ser como aqueles malucos que criam bunkers esperando o apocalipse!

Calma, tio. Eu me pergunto o quando eu já não estou por fora do que acontece. Quantos eventos que fui convidado por amigos e simplesmente não vi a notificação. Quantas feiras com uma programação bacana passaram batidas pela timeline.

Tomei duas decisões: vou perguntar às pessoas interessantes como posso acompanhar o trabalho fora do Facebook (acredite ou não, as pessoas ainda mantém blogs, sites, newsletters). E resolvi assinar o jornal Nexo, que parece um dos poucos veículos brasileiros que ainda praticam jornalismo. Não sei dizer se com isso vou ficar mais por dentro ou por fora. Ou se isso faz alguma diferença de verdade.

No fim, isso tudo é uma experiência

Eu sempre digo isso, não é mesmo? Acho que faz parte do meu jeito de levar a vida. Algo não está funcionando do modo bacana como você espera? Testa outra coisa, vê. Se for o caso, volta.

Espero usar o tempo perdido na rede azul para escrever mais e ficar mais com minha filha. Vou continuar divulgando meus projetos e posts por ali (tá vendo, nem precisava de textão, ninguém vai perceber que você saiu). Mas se você quiser me acompanhar fora do Facebook, são dois caminhos:

  • O Viver da Escrita é um blog sobre escrita, produtividade, vida freelancer e redação. Se você escreve, ilustra, vive de arte ou afins, leia o blog e assine a newsletter!
  • O meu site pessoal fica em rodrigovankampen.com.br, e é onde direciono qualquer um que se interesse pelo meu trabalho, leitores e curiosos.

Vejo vocês por aí! ;)

5 comentários sobre “Então eu meio que resolvi sair do Facebook. Oh noes!”

  1. Ilusão, ilusão achar que FB é ferramenta de informação. A informação sempre esteve, está e estará no ar para qualquer um que queira saber. Saí por 9 meses e só voltei porque gerencio várias páginas de clientes. Se não fosse isso, voltaria? Não. Jamais. O mundo fora da bolha é mais verde.
    Abraços e sucesso na jornada.

  2. Boa sorte! É mais fácil achar informações num Feedly ajeitado do que no Facebook, onde bomba notícias fake, sensacionalistas e opiniões duvidosas.

  3. Argumentos muito pertinentes.

    Eu também tenho vontade de deixar o Facebook pra trás e uso a desculpa de que não posso fazer isso sem causar dano à vida social. É realmente complicado. O “vício de conexão” tem que ser tratado com uma mistura de desapego com plano de contingência.

    Lembrando que o Whatsapp também está quase chegando ao mesmo nível.

  4. Eu também deixei/nãodeixei o Facebook. Na verdade, apenas criei outro perfil. Mas com um intuito contrário ao seu. O que eu queria era justamente seguir apenas pessoas que usavam de fato a rede como algo ~social~. O Facebook nunca quis ser (e nem pretende) algo para informação. O Facebook é uma mídia social. So-ci-al. Neste outro perfil, não tenho mais meus amigos e parentes que usavam a rede apenas como vitrine. Não aguentei mais essa vitrine de fotos felizes e posts pseudo-amadurecidos. No novo perfil, tenho apenas amigos que dão a cara a tapa para postar o que realmente lhes aflinge. E foi tão bom ter criado esse novo usuário que já nem olho mais o antigo (a não ser para ver o que meus pais postam, pois estou bem longe deles fisicamente).

    Enfim, o que quero dizer é que o problema nunca é e nunca será o Facebook. Dentro dele ou fora dele as pessoas são iguais. As informações sangrentas, sensacionalistas e fakes continuam na TV, na rádio, no barzinho, na fila do mercado e no metrô. É inocente achar que sair de uma rede qualquer dos anos 2000 fará você ver a “grama mais verde”. O problema da informação não está na mídia. Está no ser humano.

    Uma série boa que trata sobre esse assunto: Black Mirror. Tem no Netflix.

    No mais, obrigado pelas palavras. Leio sempre seus textos. Abração!

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